Seul, 30 (AE) O efeito positivo da valorização do iene em cerca de 10% este ano, que poderia proporcionar à Coréia do Sul um ganho de até US$ 1,9 bilhão na balança comercial do país, será quase totalmente eliminado pela alta do preço do petróleo no mercado internacional.
Na prática, a elevação do preço do petróleo fará com que o superávit comercial sul-coreano seja US$ 2,39 bilhões menor, explica Yoo Han-su, executivo da Federacão Coreana da Indústria (FKI).
Na avaliação dos economistas estrangeiros que têm base em Seul, porém, a surpreendente recuperação do país após a instabilidade de 1997, que os coreanos definem como a "crise do FMI (Fundo Monetário Internacional)", está praticamente assegurada no presente cenário interno e externo.
Há novamente na Coréia do Sul um clima de prosperidade e maior segurança no futuro, embora o cronograma das reformas estruturais sugeridas pela comunidade financeira internacional, em especial pelos responsáveis pelo pacote de socorro ao país em 1997, esteja muito aquém do esperado e dificilmente possa ser cumprido ainda nessa legislatura, que termina no próximo ano.
Um relatório divulgado pelo Instituto de Pesquisas Hyundai também revela que se a tendência de alta dos preços do petróleo continuar no ano que vem, mantendo-se a média de US$ 22 o barril, é provável que o saldo comercial da Coréia recue nada menos que US$ 5,67 bilhões, eliminando com isso também o efeito positivo dos terremotos em Taiwan sobre os setores petroquímico e de semicondutores do país.
Como observou o embaixador brasileiro em Seul, Sergio Serra, até agora os fabricantes coreanos de produtos como semicondutores, eletroeletrônicos e até automóveis e navios vinham tirando vantagem da alta do iene, pois competem diretamente com os japoneses no mercado internacional.
Com a valorização da divisa japonesa, os produtos coreanos ficaram comparativamente mais baratos e muito mais competitivos, embora as empresas que dependem de insumos importados do Japão estejam perdendo margem de lucro com a elevação de seus custos.
A esse cenário favorável para alguns segmentos industriais há que somar-se também o impacto dos terremotos em Taiwan, que assegurou a elevação do preço dos semicondutores no mercado internacional, garantindo melhor lucratividade aos produtores de chips na Coréia. Esse segmento industrial coreano, aliás, é responsável pelo fornecimento do produto a nada menos que 14% do mercado internacional de semicondutores.
Esse setor também responde por boa parte do superávit comercial do país. Só este ano, conforme dados do Banco Central Coreano (BOK), os fabricantes de semicondutores foram responsáveis por 13,53% do total das exportações do país, porcentual muito próximo ao verificado em 1995, antes da crise (14,15% do total das vendas externas). Ainda de acordo com as projeções oficiais, a demanda nesse mercado está crescendo.
O aumento de 1 won na demanda por chips tem um efeito multiplicador de 20%, ou seja, gera 20% a mais em capacidade instalada e empregos.
Depois dos terremotos em Taiwan, o preço dos semicondutores de 64 megabytes de DRAM subiu de US$ 15 para nada menos que US$ 20, conforme cotação de 29 de setembro.
Mas continua em alta, o que só favorece o setor na Coréia. Na avaliação dos especialistas do setor, é provável que o preço dos chips desse tipo alcance marca superior a US$ 25, pois até os terremotos de Taiwan, a produção coreana estava contida em decorrência dos preços baixos do produto no mercado internacional.
Com isso, gigantes industriais como Samsung e Hyundai (que nos últimos meses absorveu o setor de semicondutores do concorrente LG) esperam os lucros. No caso da Samsung, por exemplo, a projeção é de um ganho de mais US$ 4 trilhões de wons por causa da expansão nas vendas externas de semicondutores e monitores planos de cristal líquido.
Os fabricantes coreanos de roupas também beneficiaram-se do terremoto, a exemplo de grupos como o LG, que agora divide o setor de chips com a Hyundai, mas manteve a lucrativa atividade no ramo de petroquímicos, um dos poucos segmentos que deverá auferir ótimos lucros com a alta do petróleo.
No caso da LG Chemical, a previsão é de que os lucros subam de 53,6 bilhões de wons no ano passado para surpreendentes 400 bilhões este ano (US$ 330,5 milhões). Esse ganho do setor petroquímico se dá não só pela alta do preço do petróleo, mas também porque essa elevação ocorre no momento de recuperação das economias asiáticas.
Essa retomada do crescimento das economias da região, por outro lado, favorece ainda o segmento de construção civil da Coréia do Sul, que na avaliação da FKI deverá ter um aumento no volume de pedidos de obras no exterior (países da região) da ordem de US$ 500 milhões. Isso também implica a expansão das vendas de aço e cimento por parte das empresas coreanas.
A única nuvem que paira sobre a retomada da economia sul-coreana neste momento é um eventual aperto monetário interno ou externo.
Segundo os empresários locais, uma nova alta nos juros primários internos ou nos Estados Unidos elevaria os custos de produção, tornaria mais problemático do que já é o programa de reestruturação dos grandes grupos, definidos na Coréia como chaebols, enfraquecendo portanto a base da recuperação do país e
pior ainda, comprometeria o balanço dos bancos e instituições financeiras, recém-saídos de uma profunda crise que exigiu uma importante injeção de recursos públicos, e ainda requerem atenção.
Uma eventual puxada nos juros também poderia resultar em desastre nos demais segmentos do sistema financeiro, até mesmo nas bolsas e no mercado de bônus, já abalados pela instabilidade provocada pela crise no Grupo Daewoo, que se encontra tecnicamente quebrado.
O colapso do grupo, associado a uma tendência de realização de lucro na Bolsa de Seul em setembro, assustou os investidores, principalmente estrangeiros, e provocou a fuga de US$ 700 milhões em capitais externos só nos 15 primeiros dias de setembro, segundo dados do BC coreano.
Durante todo esse ano, até agora, os investidores externos na Bolsa de Seul realizaram vendas líquidas de ações por um total de 2,56 trilhões de wons, o que, associado à crise regional, forçou nova desvalorização, ainda que gradual, da divisa coreana este ano. Esses fatores, somados às dívidas externas do país, podem alterar o equilíbrio em conta corrente do país este ano.
Em agosto, o balanço em conta corrente do país estava positivo em US$ 1,69 bilhão, ante apenas US$ 290 milhões em julho.
Mas, para garantir que o fantasma de uma nova crise, ainda que decorrente de fatores exógenos, está totalmente afastado, tanto o setor privado quanto o governo coreano já anunciaram e adotaram medidas para assegurar o repagamento antecipado das dívidas externas vincendas para evitar problemas futuros com eventuais altas nos juros ou qualquer outro fator externo que possa comprometer a retomada da economia do do país.
Ante esse cenário, políticos e empresários sul-coreanos ousam até sonhar e ampliar os laços com os irmãos do norte, separados desde 1948, após o estabelecimento do paralelo 38 (em 1945, quando da ocupação pelos Estados Unidos e pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).
De um lado, o governo de Seul - sob o comando do presidente Kim Dae Jong e do primeiro-ministro Kim Jung Pil, que há muito se encontra próximo ao poder apesar da troca de comando ocorrida na presidência da Coréia do Sul - já vem ajudando a aplacar a fome dos irmãos do norte há pelo menos um ano, por meio de programas de cooperação econômica que tem sido ampliados mês a mês.
Por outro, grupos poderosos como o chaebol Hyundai seguem no rastro de Washington, depois que o presidente Bill Clinton anunciou a suspensão, há pouco mais de 60 dias, das sanções econômicas contra a Pyongyang, a capital da República Democrática do Povo Coreano (mais conhecida no ocidente como Coréia do Norte), e prometem construir um gigantesco complexo industrial na região costeira da metade norte da península.
O presidente do grupo, Kim Jong-il, esteve há um mês na capital norte-coreana para apresentar e discutir seus projetos com o governo local, em um encontro que durou três dias.
Depois retornou mais uma vez a Pyongyang e acertou a construção de pelo menos duas fábricas na parte norte da península. Se o projeto for concluído com êxito, não só os coreanos do norte, tidos como os irmãos pobres da região, terão uma fonte de empregos, renda e receita tributária, mas terão também uma esperança mais concreta de aproximação com a metade sul, que já tem os dois pés fincados no Primeiro Mundo.

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