Brasília, 20 (AE) - A pressão altista dos últimos dias sobre o dólar retrata, segundo a quase unanimidade dos operadores do mercado financeiro, uma percepção de deterioração do cenário político e de um quadro de crescente ingovernabilidade da Presidência Fernando Henrique Cardoso. Em termos mais claros, essa entidade algo etérea chamada "mercado" acha que o presidente não manda mais nada, que se submete a todo tipo de pressões, tendo se tornado refém dos partidos que controlam a maioria das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
O melhor exemplo dessa percepção é o comportamento concorrente da autoridade presidencial adotado pelo senador Antônio Carlos Magalhães, que teria atingido o clímax ao anunciar, na semana passada, o congelamento do preço dos combustíveis. Trata-se, evidentemente, de uma percepção errada, que beira o irracionalismo bizarro. Apesar disso, o que é importante nesse caso é que essas análises orientam decisões no mercado de moedas e de ações, que envolvem somas situadas no patamar do bilhão de dólares.
A avaliação de que o País ingressou em uma rota de instabilidade política grave levou até mesmo analistas experientes, como o ex-presidente do Banco Central (BC) Afonso Celso Pastore, a explicar, em entrevistas à televisão, que o nervosismo do mercado se deve à convicção de que o cenário político indica que o governo não conseguirá complementar as reformas necessárias para manter o programa de estabilidade monetária. A cena política nacional foi, de fato, tomada nos últimos dias pela pressão de um grupo de interesse, o dos produtores rurais, que ocuparam a Esplanada dos Ministérios, nas imediações do Congresso e do Palácio do Planalto, com caminhões e equipamentos agrícolas. As imagens produzidas por essa manifestação foram impressionantes, e o seriam em qualquer lugar do mundo.
O objetivo da bancada ruralista era o de impor ao governo um gasto adicional da ordem de R$ 18 bilhões, segundo cálculos oficiais, mediante o perdão de 40% do estoque de uma dívida de R$ 25 bilhões e o refinanciamento do restante a juros baixíssimos e prazo de 20 anos para pagar. A apreensão tomou conta do mercado, que viu no eventual atendimento dessa demanda o colapso de todo o esforço fiscal que o País vem fazendo para atender os compromissos assumidos com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao primeiro sinal, porém, de que o projeto desse grupo poderia andar, o presidente anunciou que o vetaria.
Os ministros da Agricultura, Pratini de Moraes, da Fazenda, Pedro Malan, e da Casa Civil, Pedro Parente, e o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, fizeram declarações enfáticas nesse sentido. Nem as declarações de ministros advertindo que o presidente Fernando Henrique vetaria, se aprovada pelo Congresso a proposta de renegociação das dívidas dos produtores rurais, foram suficientes para mudar o humor dos agentes econômicos. Os mercados continuaram a cair ontem, e a pressão sobre o câmbio, em busca de refúgio seguro (o hedge), aumentou a partir da interpretação segundo a qual, ao aprovar por 410 votos a 11 o regime de urgência-urgentíssima para a tramitação do projeto, os ruralistas consolidaram a desagregação da base parlamentar governista.
Ora, falso ou não, esse era o sinal que faltava, na visão do mercado, para demonstrar com um exemplo supostamente irrefutável a perda completa do controle da situação política. É um fato que essa entidade chamada "mercado" entende pouco de política, mas o que tem surpreendido muita gente do governo é até que ponto poderia chegar a incompreensão das manhas brasilienses. O placar na votação da urgência para aquele projeto retratou, ao contrário, o êxito da estratégia governista
que evitou o confronto e ofereceu às lideranças do movimento um instrumento para que desmobilizassem o aparato que levaram a Brasília.
Os articuladores e líderes governistas, com efeito, desativaram habilmente a bomba lançada pela bancada ruralista, fazendo de conta que a vitória tinha sido da aliança entre o deputado Ronaldo Caiado e o PT de Lula e José Genoíno. Só não percebeu isso quem não acompanha de perto o modus operandi da política parlamentar brasileira. Se o cenário de ingovernabilidade fosse verdadeiro, os líderes de Fernando Henrique não teriam aprovado em meio às turbulência desta semana
com ampla maioria, projetos como o que definiu critérios para a quebra da estabilidade do funcionalismo no emprego.

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