Alpinista japonês torna-se o mais jovem a escalar os Sete Picos
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quarta-feira, 13 de outubro de 1999
Por Chisaki Watanabe 
Tóquio (AE-AP) - A escalada foi preenchida com as assustadoras lembranças de fracasso, corpos congelados, pés presos pelo gelo. Mas Ken Noguchi não sentiu medo até que alcançasse o pico do Monte Everest. Em pé, no topo do mundo com quatro Sherpas(carregadores e guias), Noguchi viu uma nuvem vindo em sua direção e soube que ela poderia ser o anúncio de uma tempestade, o que pode ser mortal nas rarefeitas alturas do Everest. "Foi quando eu realmente compreendi que estava num lugar assustador", diz ele.
Então, ele começou rapidamente a descer, trazendo consigo um dos mais desejados troféus do alpinismo. A conquista do Everest fez de Noguchi o ser humano mais jovem a escalar os Sete Picos, as montanhas mais altas de cada continente. "Até retornar para a base eu não tinha compreendido que eu tinha voltado de lá vivo", conta ele.
Noguchi, um universitário de 26 anos, completou sua odisséia com a escalada do Everest no dia 13 maio, quando ele ainda tinha 25 anos e tem sido a grande estrela da mídia no Japão desde então.
O mais importante jornal japonês saudou seu sucesso e uma rede de televisão fez da escalada um documentário. Ele apareceu na primeira página de várias revistas, como a do popular semanário AERA e da edição japonesa da Playboy.
Os Sete Picos são o Everest, o Acongágua na América do Sul, o McKinley na América do Norte, o Kilimanjaro na áfrica, o Elbrus na Europa, o Maciço Vinson na Antártica e o Kosciusko na Austrália.
Alguns alpinistas escolhem o pico australiano como o último, argumentando que a montanha australiana de 2.228 metros deveria ser substituída pela Pirâmide Carstensz na Indonésia, que tem 5.030 metros de altura e é o maior pico da Oceania.
Moguchi escalou o Kosciusko, mas não o Carstensz. A pessoa mais jovem antes de Noguchi a escalar os Sete Picos, Sundeep Dhillon, da Grã Bretanha, que tinha 28 anos quando realizou a façanha, escalou ambos, de acordo com o Everest News, um site da Internet sobre o Evereste e alpinismo em geral.
Noguchi, que tem 1,69 metros e pesa 64 quilos, diz que não está preocupado com o fato de que algumas pessoas possam não aceitar seu título a menos que ele escale o pico indonésio, coisa que ele não pretende fazer. "Eu já pratiquei alpinismo o bastante. Os Sete Picos eram o meu objetivo", diz ele. "Mas eu não quero ser bom em apenas uma coisa".
A escalada de Noguchi ao Everest coroou uma carreira que começou quando ele tinha 15 anos e foi inspirada pela autobiografia de Naomi Uemura, um famosos aventureiro japonês.
O primeiro dos Sete Picos a ser escalado por Noguchi foi o Kilimanjaro, em 1989. Na época, ele quase seguiu o destino de Uemura, quando este tentou fazer uma escalada sozinho ao McKinley, onde Uemura morreu em 1984. Ironicamente, o aparelho que Uemura desenhou salvou a vida de Noguchi quando ele caiu numa rachadura. Noguchi conta que as condições instáveis do tempo no Maciço Vinson o deixaram muito assustado.
Ele sofreu muito com o enjôo das montanhas enquanto escalava o Elbrus e teve de ser trazido do alto por sua equipe. Mas estava de volta quatro meses depois para conquistar o pico em 1996.
Ele fez três tentativas até alcançar o topo do Everest. Em 1997, estava tão cansado que não conseguiu nem mesmo chegar ao Campo Quatro, que fica a 7.985 metros acima do nível do mar. No ano seguinte, o mal tempo o forçou a voltar quando estava a apenas 400 metros do pico. "Eu sabia que se eu falhasse três anos em seguida, não haveria outra chance", diz Noguchi, que contou com o financiamento de várias companhias japonesas.
Com o surpreendente bom tempo, Noguchi e quatro Sherpas começaram a etapa final para o pico às 22h do dia 12 de maio, subindo pela cadeia sul do Everest.
Pelo caminho, com a luz fosca de sua lâmpada frontal, Noguchi viu as pernas de um alpinista morto. Três outros corpos estavam a frente. "Eu tentei pensar que eles não tinham nada a ver comigo", conta, lembrando que estava perdendo a clareza de pensamento devido à fadiga e à altitude.
Onze horas e meia após deixar o Campo Quatro, eles estavam no pico, 8.848 metros acima. Noguchi permaneceu no local por apenas 15 minutos por causa da nuvem que se aproximava.
Ele diz que após concluir sua graduação, em março do ano que vem, ele quer se tornar um fotojornalista. Seu livro sobre sua carreira de alpinista "A Dropout on Everest", deve ser publicado em breve pela editora japonesa Shueisha.
E, apesar de dizer que não está mais interessado em alpinismo por troféus, ele quer voltar ao Everest mais uma vez para limpar o lixo que os alpinistas deixam por lá e possivelmente estabelecer um fundo para os Sherpas. "Eu acho que tive sorte e fui ajudado por outras pessoas", diz. "Mas me pergunto se não deveria para antes de usar toda a minha sorte e acabar morto".


