Almoço para desempregados abre comemoração do Dia do Trabalho
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segunda-feira, 26 de abril de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 27 (AE) - A primeira comemoração do Dia do Trabalho deste ano reuniu apenas desempregados. A Rua Galvão Bueno, no Bairro da Liberdade, em São Paulo, onde fica a sede da Força Sindical, foi interditada e transformou-se num imenso restaurante a céu aberto. Mais de 2 mil desempregados foram degustar um cardápio simples - arroz, feijão, macarrão e picadinho de carne com legumes - preparado a partir de doações de empresas.
A Volkswagen enviou as refeições e a Coca-Cola, os refrigerantes, além de ter cedido centenas de mesinhas. Padres, pastores, pagodeiros, políticos e sindicalistas animaram a manifestação, que começou às 11 horas.
Os discursos políticos - em favor da CPI dos Bancos e contra a ausência de políticas públicas e sociais que amenizem o drama dos desempregados - foram alternados com orações, canções católicas que ficaram populares na voz do Padre Marcelo Rossi e até bençãos de carteiras de trabalho, a maior parte há meses ou até anos sem um único registro.
O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, lembrou dos resultados das pesquisas na Grande São Paulo, que indicam desemprego próximo a 20% da população economicamente ativa, e da necessidade de abertura de frentes de trabalho rurais e urbanas.
O secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eleno José Bezerra, afirmou que a Força Sindical está reivindicando do governador paulista, Mário Covas (PSDB), e do prefeito paulistano, Celso Pitta (ex-PPB), a insenção, para desempregados, de tarifas como água, luz, transportes e impostos.
Mesmo com a privatização de alguns sistemas, informou Bezerra, os governos têm como garantir isso, além de promover a distribuição de cestas básicas.
Desempregados protestaram contra sua situação. Muitos, como a faxineira de empresas, sem trabalho há um ano, Maria de Lourdes Silva, levaram filhos para o local. Ela afirmou que a família está passando fome e só sobrevive graças à ajuda de vizinhos e de igrejas que algumas vezes doam cestas-básicas.
Maria está sobrevivendo também com trabalhos eventuais em casas de família, mas disse que as pessoas no bairro onde mora, na zona leste, não têm dinheiro para pagar as diárias. Para ir mais longe procurar trabalho, falta dinheiro para o ônibus. Segundo declarou, o almoço era o maior presente que poderia receber pelo Dia do Trabalho.
Também houve reclamações. Valdira Santana dos Santos, funcionária pública aposentada de 55 anos, considerou a manifestação como "demagógica e humilhante para os desempregados". Segundo ela, que mora por perto, o "pseudo-protesto" foi feito por sindicalistas e políticos com objetivo de promoção pessoal.
"Isso parece um circo, onde cidadãos estão sendo desrespeitados", disse. "Não é dessa forma que se conscientiza um povo." Valdira, por ser vizinha da sede da Força Sindical, lembrou que nas eleições esses mesmos sindicalistas e políticos (a central têm dirigentes filiados ao PFL, ao PTB, ao PPB e ao PSDB) apoiaram o presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Mário Covas e o prefeito Celso Pitta. "Esse povo sofrido está de novo sendo usado."


