Rio, 28 (AE) - O almoço de desagravo ao ex-comandante da Aeronáutica, Walter Br„uer, realizado hoje no Clube da Aeronáutica, no Rio, tornou-se - como era previsível - um ato de protesto dos militares nacionalistas contra o governo Fernando Henrique Cardoso. Cerca de 660 pessoas, a maioria militares da reserva, lotaram o salão do clube e aplaudiram longamente o presidente da entidade, brigadeiro Ércio Braga, que, em seu discurso, conclamou a sociedade a dizer que havia chegado à "fronteira do inaceitável" - e encerrou afirmando que uma palavra sintetizaria o sentimento dos militares: "Basta".
Br„uer, que não levou família nem ex-colaboradores ao almoço, não discursou. Encurralado pelos jornalistas - ficou tão confuso que acabou entrando no banheiro feminino -, limitou-se a dizer que o ponto de vista expresso no almoço não era apenas dos militares. "Isso não é uma revolta, isso é uma opinião não dos militares, mas da nação", afirmou.
Ele disse ter ficado surpreso com o número de participantes da homenagem, mas procurou desfazer a idéia de que o almoço tinha como alvo amplificar a crise militar. "É claro que não", reagiu, irritado, quando perguntaram se a crise havia se agravado.
O encontro não reuniu muitos nomes de peso no meio militar ou civil - de políticos, por exemplo, registrou-se a presença do folclórico eterno candidato à Presidência da República, Enéas Carneiro (Prona). O presidente do Clube Naval, almirante Domingos Pacífico Castelo Branco, não compareceu. Segundo o presidente do conselho deliberativo do Clube da Aeronáutica, brigadeiro Murillo Santos, havia pelo menos 200 militares da ativa, à paisana, no almoço. Fardados, contavam-se seis - um deles, o brigadeiro Altevo Volotão, diretor de intendência da Aeronáutica.
Na semana passada, o comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista, enviou uma correspondência à diretoria do clube, pedindo que os da ativa não fossem envolvidos no almoço. "Não somos nós os encarregados de convidar as pessoas nas unidades e, sim, o comando", afirmou Braga. A presença de militares da ativa foi minimizada até pelos organizadores. "Eles não vão ativar nada e o próprio Br„uer pediu que eles não viessem, mas ninguém estava proibido de comparecer", disse Santos.
Legitimidade - Apesar de abrir seu discurso dizendo que a reunião não tinha como objetivo derrubar o governo, Braga, o primeiro a falar, esquentou o clima. "Não se pode falar na legalidade de um governo que, por sua estratégia, torna-se ilegítimo", afirmou, entre aplausos. Ele classificou a demissão de Br„uer, no último dia 17 - alegadamente por ter criticado de forma velada o ministro da Defesa, Élcio álvares - de "um deboche ou um paradigma do ridículo".
Na mesma linha foram os pronunciamentos do presidente do Clube Militar, general Helio Ibiapina de Lima - conhecido representante da linha-dura do Exército - e do ex-chefe do Estado Maior das Forças Armadas (Emfa), general Jonas Morais Correia Neto. Em seu discurso, Correia Neto chegou a dizer que a "principal habilitação" para ser do governo, hoje, é a de ter sido "ativo na subversão ideológica de esquerda, de preferência
assaltante de bancos, sequestrador, guerrilheiro urbano ou rural".
Não faltaram referências a supostas corrupções no governo. "Os cidadãos decentes estão cansados de tanto cinismo e de tantas sem-vergonhices", disse Correia Neto. Braga, numa ironia pesada, apontou que os militares não têm uma varinha de condão "que transforma parentes, amantes e corruptos contumazes em profissionais competentes".
Armas - Numa tentativa de acalmar os ânimos, o brigadeiro Murillo Santos garantiu em seu discurso que os militares não têm intenção de se imiscuir na vida política do País. "Ou ainda pensam que eles serão capazes de pegar em armas só porque acham que a Infraero não deve ser privatizada ou a aviação civil deve permanecer atrelada à Aeronáutica...", disse.
Mais tarde, durante o almoço, Santos garantiu que o encontro tinha como objetivo provocar mudanças na estratégia do governo e na forma de tratamento dispensada atualmente às Forças Armadas. "O presidente Fernando Henrique Cardoso está muito longe de qualquer processo de impeachment", afirmou. O cacoete golpista expresso por alguns dos presentes, como o brigadeiro Ivan Frota e o deputado federal e capitão do Exército Jair Bolsonaro foi rechaçado por Santos.
Mais enigmático, Braga afirmou que o governo recebeu dos militares um "sinal amarelo" - e advertiu: "Virá o sinal vermelho". Para Santos, porém, não há motivos para temer a voz dos quartéis. "Quando vier o vermelho, o que vamos fazer? Não votar nele, nem em quem ele indicar", garantiu. "É esse o processo, sempre numa saída institucional".

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