São Paulo, 05 (AE) - O caminhão que roda sobre trilhos deixará de ser utopia para virar realidade no Brasil a partir deste mês. A ferrovia América Latina Logística (ALL), que assumiu a antiga malha sul da Rede Ferroviária Federal S.A., investirá R$ 30 milhões este ano num novo sistema de transporte bimodal (que conjuga o uso dos modais ferroviário e rodoviário). Trata-se do sistema road railer: carretas que são acopladas à ferrovia, continuando o transporte sob trilhos, como se fossem vagões. Com isso, a ALL aposta no desenvolvimento da ferrovia no transporte de mercadorias do cone sul, que apenas no eixo São Paulo-Porto Alegre movimenta 45 milhões de toneladas de carga por ano - quase a totalidade por via rodoviária.
O sistema funcionará a partir deste mês no eixo São Paulo-Porto Alegre. Daqui a cerca de dois meses, o road railer fará o trajeto São Paulo-Buenos Aires e Porto Alegre-Buenos Aires. Já existem atualmente 21 caminhões-vagões que percorrem o trajeto São Paulo-Porto Alegre levando carga industrializada, num serviço porta-a-porta concluído em quatro dias. Em junho, entrarão em operação mais 160 carretas que sairão de São Paulo e irão até Buenos Aires, com 10 dias de trânsito. O sistema funcionará em conjunto com o trem Cargo Sul da ALL, que atualmente transporta cargas exclusivamente dentro de contêineres entre São Paulo e Buenos Aires. Com os dois sistemas conjugados, os trens da ALL farão 5 viagens semanais entre São Paulo e Buenos Aires.
O caminhão-vagão será fabricado no Brasil pela RoadRailer Mercosul, joint-venture formada pela norte-americana Wabash e pela Bernard Krone do Brasil especialmente para o fornecimento de equipamentos para o Mercosul. Inicialmente, as carretas serão importadas da Alemanha, mas o plano da RoadRailer é investir R$ 2 milhões para iniciar a produção dos equipamentos na fábrica da Bernard Krone de Curitiba, a partir do segundo semestre. De acordo com o diretor da nova empresa, Roberto Vámos
a joint-venture está confiante no mercado sul-americano. "Temos capacidade para produzir 50 road railers por mês", conta.
A ALL já gastou R$ 20 milhões para operar o caminhão-vagão. O valor incluiu a compra de 160 carretas, 160 equipamentos de engate ferroviário e investimentos na capacidade logística dos terminais de carga. A empresa tem terminais nas cidades de Tatuí (SP), Porto Alegre e Uruguaiana (RS) e em Buenos Aires e Zárate (Argentina). De acordo com o diretor da ALL, João Carlos de Castro Rosas, os terminais tiveram de ser modernizados para receber as carretas e acoplá-las umas às outras sobre trilhos. Ou fazer o trabalho inverso: retirá-las dos trilhos para o engate nos cavalos-mecânicos para que a carreta volte para a estrada. Rosas afirma que a ALL pretende adquirir 1.000 road railers num período de três a cinco anos.
O diretor da ALL informou que, com o caminhão-vagão, a empresa oferecerá serviços de entrega porta-a-porta de cargas gerais, de alto valor agregado. Cada road railer terá capacidade para até 27 toneladas de carga útil e formará composições de até 20 vagões, que percorrerão o trajeto em 60 km/h nos trilhos nacionais. Nos EUA, onde a tecnologia bimodal existe desde 85, os road railers andam a até 150 km/h e chegam a formar 120 vagões. "Mas no Brasil haverá limitações de velocidade por causa da estrutura dos trilhos", disse Rosas.
Tanto a ALL como a RoadRailer Mercosul estão de olho no mercado empresarial do Mercosul. Apenas entre São Paulo e Porto Alegre existem 130 empresas que são embarcadoras de carga em potencial da ferrovia. Os números foram levantados em estudo de mercado realizado em 99 pela ALL. A empresa detectou que o transporte ferroviário nesse eixo será entre 5% e 7% mais barato em relação ao rodoviário. "Mas o grande diferencial da ferrovia será a oferta de vantagens que vão pesar no custo, já que o transporte ferroviário oferece menor risco de avaria de carga e de roubo, pois os vagões são monitorados por satélite", diz Rosas. "Além disso, a ferrovia é menos poluente". A ALL não quis informar os nomes dos clientes que já utilizam os trens da empresa.
A ALL, empresa formada pela Sul Atlântico, Mesopotâmico e Buenos Aires al Pacífico, opera 15 mil quilômetros de linhas ferroviárias que ligam o Brasil à Argentina. No Brasil, a ALL administra 6,3 mil quilômetros de linhas da antiga malha Sul e 850 quilômetros da malha paulista. A empresa investiu R$ 220 milhões na melhoria da infra-estrutura ferroviária dos dois países e deve investir mais R$ 90 milhões este ano. Os projetos da ALL têm o apoio do BNDES, segundo Rosas.

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