Alimentação do diabético sem mitos
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de maio de 2006
Agência Estado 
No início...
O homem é sempre sua própria doença. O que sofre da doença doce, quando a urina é sacarina, quase sempre é um temperamento auto-indulgente, que tem origem numa recusa egoística de cuidar dos outros, a não ser dele próprio. Assim, os outros não o amam e para satisfazer seu natural e humano desejo de amor come os doces da terra, em vez dos doces do espírito. Nada podemos fazer senão prescrever as carnes mais magras, os legumes e frutas que menos amido contenham e restringir ou omitir os doces. Pouco, entretanto, se consegue, a não ser a penosa privação e o prolongamento de uma vida restrita, a não ser que o paciente tenha um enfraquecimento do espírito e assim se habilite a amar, para além de si próprio.
Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwel
Nos dias de hoje...
Não é difícil imaginar um médico da era antes de Cristo discursando dessa forma sobre a dura sina de um diabético, descrevendo os sintomas da doença e finalmente, resumindo o único tratamento disponível, na época, à restrição extrema de alimentos.
Na era pré-insulínica, o rigor da restrição calórica, em geral, e dos carboidratos, em particular, levava à desnutrição dos pacientes e, mesmo assim não impedia a alta mortalidade dos diabéticos dependentes de insulina e a alta morbidade dos não insulino-dependentes.
Atualmente, a orientação nutricional dos pacientes com diabetes se aproxima muito daquela direcionada às pessoas sem a doença, da mesma idade e sexo. Quando o médico restringe as calorias das dietas dos pacientes com diabetes, está tratando a obesidade desse paciente, e não o diabetes. Quando restringe a ingestão de gorduras, está mirando nos distúrbios do perfil lipídico, e não no diabetes. Quando o endocrinologista recomenda a ingestão de proteínas em 15-20% do valor calórico total não está fazendo nada de diferente em relação à prescrição de dietas para pessoas sem diabetes, afirma a endocrinologista Ellen Simone Paiva.
Finalmente, a maior tabu na dieta dos diabéticos já caiu por terra há muito tempo - diz a médica- o de que eles não podem comer carboidratos. Eles
podem, inclusive, comer os temidos açúcares simples, como a glicose, a frutose e até a sacarose, diz a especialista, que também é médica nutróloga.
Isso não significa que as pessoas com diabetes devam viver como se não tivessem a doença, pelo contrário, isso significa que elas devem se alimentar melhor para terem mais saúde. Quando um paciente de 50 anos, obeso e hipertenso, procura o endocrinologista para tratamento, ele deve ser orientado a seguir uma dieta muito parecida a de uma pessoa que não tem diabetes. Se for diabético, o médico dará maior atenção ao fato de que ele tem maior risco coronariano, pela associação de fatores de risco.
A primeira preocupação na dieta do diabético é o valor calórico desta. Se ele tem peso normal, as calorias serão calculadas no sentido de manter peso, ou seja, em média 1800 calorias para uma mulher jovem e 2500 para um homem jovem. Esse cálculo é variável, na dependência do paciente praticar ou não exercícios físicos. Se o paciente tem sobrepeso ou obesidade, o médico, geralmente, calcula um déficit calórico de cerca de 500-700 calorias, complementa Ellen Simone Paiva, que é mestre em Medicina na área de nutrição e diabetes pela USP.
A orientação nutricional para esse paciente devem prever 3 refeições e 2-3 lanches. Esses lanches também podem ser negociados com o paciente. Uma vez que dependem de sua fome, preferências e disponibilidade. Até o rigor nos horários das refeições dos diabéticos tem sido reduzido, uma vez que, no mercado, estão disponíveis drogas orais que podem ser tomadas minutos antes das mesmas e até insulinas que fornecem a cobertura basal, independente das refeições, e insulinas que também podem ser aplicadas no momento da refeição.
Atenção às frutas
As frutas, muitas vezes, são uma armadilha para a dieta dos diabéticos. É comum o paciente classificá-las como alimentos muito saudáveis, que podem ser ingeridos à vontade. Na verdade não podem. Assim como os não diabéticos, eles devem consumir em média 4 porções de frutas por dia, pois apesar de muito saudáveis, as frutas são calóricas e podem dificultar a perda de peso nos obesos e a titulação da insulina nos pacientes insulino-dependentes, informa a médica Ellen Simone Paiva, que é mestre em nutrição e diabetes pela USP. (A.E.)
Bebidas alcoólicas
O consumo do álcool tampouco deve ser abolido do cotidiano do paciente com diabetes compensado. Doses seguras são de até duas doses diárias para o homem e até uma dose para mulher, o que representa uma média de 15-30g de álcool. É importante lembrar que nunca devem ingerir álcool sem comer, devido ao risco da hipoglicemia e que o álcool fornece cerca de 7 calorias por grama consumida. Essas orientações não são aplicáveis aos pacientes com diabetes descompensado, e àqueles com triglicérides elevados ou com risco de abuso ou dependência, adverte a endocrinologista. (A.E.)
Consumo de arroz e doces...
É preciso ensinar ao paciente diabético que o arroz não faz mal, só quando consumido em grande quantidade. E que os doces não devem ser abolidos de seus cardápios, a menos que o paciente esteja descompensado ou obeso, bem como no caso dos não diabéticos. O tratamento nutricional dos pacientes com diabetes deve ser individualizado, respeitando seus hábitos, preferências nutricionais, perfil metabólico, tipo de medicamento utilizado, peso corporal e estilo de vida. (A.E.)


