Buenos Aires, 25 (AE) - "Todos os argentinos querem um país diferente". Com estas palavras, o recém-eleito presidente da Argentina, Fernando De La Rúa, dirigiu-se à população, para anunciar o fim da era Menem. Ao seu redor, ao pé do Obelisco, símbolo da cidade de Buenos Aires, a multidão aglomerada comemorava. Não era o milhão de argentinos que comemorou freneticamente a vitória de Raúl Alfonsín no mesmo lugar em 1983
nem as mais de 500 mil pessoas que deram exuberantes vivas a Carlos Menem em 1989. Somente 50 mil pessoas celebraram pacatamente - a maioria militantes e poucos curiosos -, que rapidamente se retiraram do lugar.
Dentro do Hotel Panamericano, escolhido para quartel-general por estar ao lado do Obelisco, os "aliancistas" comemoravam, mas com um sentimento de ter uma "espada de Dâmocles" pendendo sobre a cabeça: enquanto De La Rúa recuperava a Casa Rosada, sede do governo nacional, para a UCR e seu novo aliado, a Frepaso, a perda da província de Buenos Aires para os peronistas prenunciava que está pela frente um governo onde o poder será limitado, e será necessário pactuar com os cada vez mais influentes governadores peronistas, que passarão à oposição a partir de dezembro.
Segundo os últimos números, De La Rúa, candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, obteve 48,5% dos votos; o peronista Eduardo Duhalde conseguiu 38%, e o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo 10,15% dos votos. Com esta eleição, a Aliança eleva sua participação na Câmara de Deputados de 106 para 124 deputados, o que a deixa próximo de conseguir quorum próprio, que é de 129 parlamentares.
Os peronistas perderam cadeiras na Câmara, passando de 122, para 102 deputados. Outros partidos caíram de 31 cadeiras para 29, entre as quais estão os parlamentares daquele que será o fiel da balança, o "Ação pela República", do ex-ministro Domingo Cavallo: passou de três para 11 deputados. As seis províncias com eleições para governadores dividiram-se meio a meio entre peronistas e aliancistas. Na contagem final, há 14 peronistas e oito aliancistas.
Em uma coletiva de imprensa na manhã seguinte à eleição, De la Rúa não quis anunciar os nomes de seu futuro gabinete. "Esse anúncio levará algum tempo", disse. De La Rúa sutilmente disse que não era preciso pedir conselhos a Menem, "é questão de ouvir a voz do povo, que deu sua mensagem nas urnas".
De la Rúa viajará ao Brasil em uma ou duas semanas, no que se constituirá na primeira viagem na categoria de presidente recém-eleito ao exterior. Agradeceu o telefonema do presidente FHC, que foi o primeiro em chamá-lo para parabenizá-lo, e declarou que "deve ser recriada a base da confiança entre nossos países, para que o Mercosul seja para o bem de todos e para o mal de ninguém".
À noite, De La Rúa recebeu os cumprimentos do cabisbaixo Duhalde, que declarou que "teremos um presidente confiável". Duhalde também aproveitou para comemorar que a derrota não foi totalmente avassaladora, consolando-se com a vitória peronista na província de Buenos Aires, a maior e mais rica do país, considerada fundamental para a governabilidade da Argentina. Os benefícios dessa vitória, no entanto, serão mais do governador eleito, o peronista Carlos Ruckauf, do que do próprio Duhalde, que perdeu em seu próprio território.
A derrota da Aliança UCR-Frepaso nessa província atinge De La Rúa, que terá todas as províncias importantes comandadas por peronistas. Mas a principal vítima da derrota não é a UCR de De La Rúa, e sim o Frepaso do vice-presidente eleito Carlos "Chacho" álvarez. Em dezembro passado, quando foram repartidas as candidaturas na coalizão, a frepasista Graciela Fernández Meijide - autora da vitória da Aliança na eleição parlamentar de 1997 - ficou encarregada de vencer os peronistas no seu mais forte bastião. Mas o trunfo não se repetiu.
Desde seu lugar na vice-presidência, álvarez tentará impedir que a UCR imponha o peso de sua imensa estrutura na repartição de cargos e espaços de poder. A comentarista Nancy Pazos afirmou que De La Rúa "será personalista. Ele definirá quem integrará seu gabinete". Desta forma, o Frepaso ficaria com poucos ministérios em relação à UCR.
Analistas especulam que para recuperar o terreno que perdeu, álvarez poderia deixar a vice-presidência para candidatar-se à prefeitura de Buenos Aires a meados do ano que vem. Essa possibilidade foi descartada pelo porta-voz de De La Rúa, Dario Lopérfido: "de jeito nenhum", disse. Segundo o "think tank" Rosendo Fraga, essa manobra "é pouco provável. Como vice-presidente, ele automaticamente também é presidente do Senado. E deixar o cargo implicaria em ser substituído pelo seguinte na linha de sucessão, que é um peronista".
Uma declaração de De la Rúa levantou suspeitas de que ele já adquiriu sabor pelo poder, mesmo antes de colocar a faixa: quando lhe perguntaram o que achava sobre a polêmica da reeleição, disse "em quatro anos não se poderá fazer tudo o necessário".

mockup