Aliança entre EUA e guerrilheiros radicais causa espanto
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 1999
Por GILLES LAPOUGE, Correspondente 
Paris, 10 (AE) Silencioso e quase esquecido, o Exército de Libertação de Kosovo (ELK) há 15 dias, ou seja, desde o furacão desencadeado na Sérvia e em Kosovo pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizou um estranho reaparecimento.
Os artigos, relatos de fugitivos, informações veladas chegam-nos de toda parte. Todos dizendo a mesma coisa: os guerrilheiros do ELK continuam combatendo em condições desesperadoras contra o Exército sérvio. E há que se destacar nesse mesmo depoimento: o ELK tem prestado permanente informações aos militares ocidentais, orientando seus golpes.
Causa espanto esse apoio logístico do ELK à Otan e aos americanos. Ainda no ano passado, entre as organizações kosovares que lutavam contra os sérvios de Slobodan Milosevic, os americanos preferiam favorecer a ala moderada, a Liga Democrática de Kosovo, dirigida por um "Gandhi" ou um "Mandela" kosovar, Ibrahim Rugova (que vimos recentemente ao lado de Milosevic, que provavelmente o mantém como refém).
A desconfiança dos americanos justificava-se: o ELK é composto por guerrilheiros exaltados e impiedosos, hábeis em assassinar soldados sérvios pelas costas, com a única intenção de provocar a vingança de Milosevic, favorecendo, assim, a intervenção dos aliados. O ELK, portanto, nada mais seria do que um grupo terrorista, no dizer de Robert Gelbard, conselheiro do presidente Bill Clinton para assuntos balcânicos.
Movimento totalitário e ultraviolento, marxista sem nuances, frequentemente caracterizado por uma obediência maoísta, o ELK não seduzia os americanos. (É também provável que o movimento proteja os narcotraficantes que há anos prosperam na podridão dos Bálcãs.)
Foi durante a recente Conferência sobre Kosovo de Rambouillet, na véspera dos ataques aéreos, que os analistas começaram a indagar se, decepcionados pelos resultados medíocres alcançados pelos moderados de Rugova, os americanos não estariam em vias de se deixar aliciar pelos extremistas do ELK.
Durante toda a realização do encontro de Rambouillet, a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, manteve intensas conversas telefônicas com o jovem dirigente do ELK, o marxista- leninista Ilashin Thaci, cognominado Serpente, que logo depois se tornaria primeiro-ministro do governo provisório de Kosovo.
Uma aliança antinatural? Mas os americanos são useiros e vezeiros, considerando sempre errado subvencionar os grupos mais extremistas dos países conturbados. No que nunca são bem-sucedidos, conforme comprovado pela última de suas iniciativas: a ajuda prestada no Afeganistão aos talebans, esses islâmicos delirantes, que agradeceram aos Estados Unidos perpetrando atentados mortíferos contra americanos no Sudão e Tanzânia.
E, no entanto, ainda hoje, ouvem-se vozes em Washington, pregando prudência em relação ao Exército de Libertação de Kosovo. Não seria perigoso armar o ELK, segundo a provável determinação do Congresso, a partir da semana que vem? A guerrilha do ELK não pesa diante do pesado Exército sérvio, mesmo porque durante os ataques americanos, as tropas sérvias golpearam tranquilamente os guerrilheiros, reduzindo-os consideravelmente.
Existe ainda um outro perigo indicado em Washington: as bases da retaguarda do ELK, seus santuários, estão fora de Kosovo, tanto na Albânia quanto na Macedônia. Por isso, armar o ELK seria levar os soldados sérvios a atacar esses santuários, propagando a lepra da guerra em toda região do sul dos Bálcãs.
E, finalmente, existe ainda o grupo dos duros do ELK, liderado por Jakub Krasniqi, que não esconde sua meta distante, de recriar a "Grande Albânia" que, durante a 2.ª Guerra, Benito Mussolini fez luzir diante dos olhos da população. Krasniqi já disse: "Queremos mais do que a independência de Kosovo; queremos a reunificação de todos os albaneses dos Bálcãs." Esse aumento da potência diplomática do grupo marxista extremista do ELK ilustra bem os perigos, as ambiguidades e a perniciosa dialética que se desenvolve junto à equipe da Otan. Muitas vezes as vitórias alcançadas pelos alidados levam a efeitos rigorosamente contrários aos esperados por essas vitórias.
Um exemplo? O Ocidente foi à guerra contra o intolerável mito da pureza étnica e seu corolário, a depuração genocida. Mas no que redundará a derrota do país sob as bombas? Na separação para sempre das etnias. É o que já aconteceu na Bósnia, na Croácia etc., nas quais os acordos de Dayton deram fim aos regimes multiculturais, multiétnicos e multi-religiosos aí reinantes, isolando uns dos outros, os sérvios, os muçulmanos, os croatas etc.
O mesmo esquema repete-se em Kosovo: ontem, a coabitação entre kosovares e sérvios era difícil (e desvantajosa para os kosovares, tratados como raça inferior). Mas, depois do ódio acirrado pelos massacres cometidos por policiais sérvios, como seria possível imaginar um prolongamento da coexistência entre os dois povos?
Outro exemplo: ontem, os kosovares, oprimidos pelos sérvios, reclamavam sua autonomia (que foi o tema da malograda conferência de Rambouillet). Porém, depois de os bombardeios terem atingido a Sérvia, assim como depois de concluído o massacre dos kosovares pelos sérvios - bem como o êxodo de cerca de um milhão de kosovares - como imaginar um amanhã no qual estes últimos, restabelecidos graças à Otan, se darão por satisfeitos apenas com a autonomia? É evidente que exigirão sua independência, mesmo que esta tenha sido sempre recusada pelo Ocidente.
Seria fácil multiplicar tais exemplos. Todos eles comprovariam que uma dialética demoníaca se encontra na base dessa guerra, na qual o sucesso das tropas da Otan está quase assegurado. Seria até mesmo possível imaginar que os exilados poderão, pouco a pouco, regressar a seus lares.
Mas para onde regressarão? Para um cemitério. Quanto aos sérvios, ainda que livres do tirano sanguinário Milosevic, eles jamais perdoarão o Ocidente.
Justamente por tais razões, o grande dramaturgo inglês Harold Pinter marcou Bill Clinton, Tony Blair e a Otan com ferro em brasa: "Eis a definição da política estrangeira americana - beije- me o traseiro ou quebro-lhe a cara."
Em seguida, Pinter demonstrou como a Otan chega a resultados exatamente inversos aos desejados, pelo seu próprio sucesso: "A justificativa da operação da Otan (as considerações humanitárias) é francamente uma piada de mau gosto que prova a profunda hipocrisia dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
As sanções contra o Iraque (decididas por esses mesmos países) mataram perto de um milhão de crianças iraquianas. É o que se chama, sem ambiguidade, um genocídio." E Pinter conclui, ferozmente: "O nível de inteligência dessa empresa é patético, senão infantil."
No entanto, mal acabamos de ler essas frases perturbadoras de Pinter e já somos informados, por fonte segura, que execuções em massa foram provavelmente empreendidas pelos sérvios, em resposta aos bombardeios. E os alemães declaram-se angustiados, ao saber que a paz retornada ao país massacrado encontrará um verdadeiro matadouro. E então, onde o último dos justos poderá esconder-se nessa confusão?


