Aliados questionam existência do Ministério do Desenvolvimento após saída de Carvalho
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sábado, 04 de setembro de 1999
Por Rosa Costa, Isabel Braga e Gustavo Paul 
Brasília, 05 (AE) - Criado há menos de nove meses, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior começa a ter sua existência questionada por políticos da base de apoio ao Planalto. A saída de dois ministros nesse curto espaço de tempo, e a incerteza sobre o que esse ministério realmente pode fazer sem ferir os príncípio da política econômica, levou hoje o ex-presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Pedro Piva (PSDB-SP), a admitir a necessidade de repensar o "superministério".
"O ideal seria ter uma pasta que tivesse o controle do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destinada a incentivar dois setores essenciais para estimular o desenvolvimento do País, a indústria e o comércio, mas sem criar falsas expectativas", disse Piva. O senador defende a retirada do nome "desenvolvimento" do ministério, e seu rearranjo nos moldes da antiga pasta da indústria e do comércio. Além de Piva, outros aliados também questionam os limites impostos ao ministério pela política econômica, cujo objetivo principal é o cumprimento do ajuste fiscal.
"É o ministério da missão impossível", admitiu um interlocutor de dentro do Planalto. "Tem de fazer omelete sem quebrar os ovos, ou seja, acenar com o desenvolvimento sem ter autonomia em relação ao Ministério da Fazenda". Para o governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves (PMDB), "a criação desse ministério no momento em que o País não tinha uma perspectiva imediata de um crescimento maior frustrou muito". Garibaldi acha que, agora, "é preciso desmistificar a idéia de que o ministério vai fazer milagres da noite para o dia".
O próprio presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), já havia previsto, no auge da criação da pasta, que ela seria "um fiasco diante da expecativa que criaria e da impossibilidade de realizar tudo o que prometia". "A extinção do ministério, por mais que seja lógica, pode criar um sério problema para o governo", advertiu um assessor da Presidência. "Seria botar mais lenha na fogueira na polêmica entre estabilidade e desenvolvimento". Segundo ele, essa atitude seria contraditória, se considerado o recém-lançado Plano Plurianual. "O fim da pasta poderia significar que o governo, de fato, não tem intenção de criar as condições para o desenvolvimento prometido", observou. "Nessa altura dos acontecimentos, isso poderia trazer um desgaste enorme". Mudança - Projeto pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso para dar o tom de seu segundo mandato, o Ministério do Desenvolvimento foi moldado para se chamar Ministério da Produção e ser ocupado pelo ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros. O escândalo dos grampos no BNDES e a crise com a mudança cambial de janeiro mudaram os planos do presidente. Malan se fortaleceu e, segundo este interlocutor do Palácio, quis que o Desenvolvimento fosse um "apêndice, e não um foco de enfrentamento à sua pasta".
Antes de ser demitido, Carvalho admitiu a um amigo que a briga com Malan ocorria "em torno de questões pontuais, que emperravam a retomada do desenvolvimento". Queixou-se da burocracia do Ministério da Fazenda que, a seu ver, não tinha sensibilidade para solucionar os entraves ao desenvolvimento e ao crescimento das exportações. Sua saída não põe fim à disputa entre os que querem o governo voltado para o desenvolvimento, principalmente os tucanos, e os que atribuem prioridade ao ajuste fiscal, a equipe econômica.
O presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho (AL)
defendeu hoje a manutenção da pasta no formato em que está. "Este é um ministério emblemático, que tem o nome da segunda etapa do programa econômico", afirmou. E acrescentou: "O desenvolvimento deve ocorrer a partir da estabilidade". Ele admitiu, porém, que o desenvolvimento continuará sendo sempre relegado a um segundo plano. "Não pode se sobrepor à estabilidade".
Para Vilela, os transtornos impostos pelas diferentes crises internacionais criaram uma atitude defensiva na equipe econômica, mas ele acredita ser possível "ousar" na linha do desenvolvimento. "O Clóvis Carvalho não disse nada diferente, na essência, do que o presidente e o Malan dizem; apenas falou de forma mais temperada e num momento inoportuno". Mas o senador admite que o desenvolvimento continuará sendo sempre relegado a segundo plano. (Colaborou Mariana Caetano)


