Brasília, 01 (AE) - Maior do que a preocupação com a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigará o sistema financeiro é a apreensão do presidente Fernando Henrique Cardoso com a disputa de espaço entre os partidos aliados, principalmente o PFL e o PSDB, com vistas à exclusão do PMDB.
O presidente identifica nos movimentos de caciques do PFL, com destaque para o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), movimentos para acirrar a disputa e levar o governo ao rompimento com os peemedebistas. Os principais articuladores políticos do Palácio do Planalto asseguram que o presidente não cogita dispensar qualquer partido da base de sustentação do governo. Consequentemente, não está disposto a participar do jogo de pressão para excluir o PMDB. Prova maior da disposição de Fernando Henrique de acomodar os conflitos foi sua decisão de nomear Genésio Bernardinho (PMDB-MG) para a diretoria do DNER e Wagner Rossi (PMDB-SP) para a Companhia Doca de Santos, comunicada ao líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), na quarta-feira. O Ministério dos Transportes confirmou a nomeação de Bernardino que deverá ser publicada no Diário Oficial de segunda-feira.
Diante desse diagnóstico, a assessoria política do Planalto reconhece que o trabalho de articulação com as bases está falho e precisa ser incrementado. O próprio presidente já começou a se envolver pessoalmente nesse esforço, de conversar não só com o PMDB, mas também e principalmente com o PFL, para deixar clara a necessidade de coesão da base, para o governo.
"Não há que se falar em dispensar qualquer partido da base, porque precisaremos de quórum de três quintos para fazer muitas mudanças na Constituição, e ainda temos que prorrogar o FEF (Fundo de Estabilização Fiscal) no final deste ano", observou um assessor político governista.
No entanto, o comportamento de algumas lideranças do PMDB, como o líder no Senado, Jáder Barbalho (PA), de desafiar o governo e questionar a autoridade do presidente da República em conversas reservadas ou mesmo com a imprensa, não contribui para preservar o bom relacionamento do partido com o Planalto, na avaliação dos articuladores governistas.
"Essa postura só alimenta a expectativa dos outros parceiros, que pressionam para afastar o PMDB", observou um assessor palaciano, explicando que o presidente fica submetido a cobranças de outros aliados e da própria opinião pública para reagir.
"Essa é uma profecia que se auto-realiza", completou outro articulador, ao lembrar que o PMDB vem tentando fazer crer que pode prescindir do governo, por ser o maior partido no Congresso e ter alternativa própria para as eleições presidenciais de 2002. A origem de toda a instabilidade da base está na crença de que o governo não precisa mais da base completa, porque já concluiu a votação do ajuste fiscal. A partir de então, só precisaria de maioria simples para eventuais mudanças infra-constitucionais. Daí, a conclusão de alguns líderes do PMDB de que o partido seria o candidato à exclusão, de acordo com interpretação do Palácio do Planalto.
"Dizer que o PMDB não é um patinho feio é um ato falho do Jáder, porque é ele que vê o partido assim. Para nós, não existe partido melhor ou pior. São todos indispensáveis para o governo", afirma o informante.
A criação das CPIs para investigar o Judiciário e o Sistema Financeiro acabou explicitando um confronto entre os dois principais partidos aliados, o PFL e o PMDB, e que antes só acontecia nos bastidores. Hoje, o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA) negou que o governo vetaria a nomeação de políticos indicados pelo partido. "O partido não está na disputa de cargos e não quer ficar com nenhuma marca fisiológica", avisou Geddel. "Tanto é verdade que o senador Jáder (Barbalho), pediu de volta ao governo a lista de indicações feita pelo PMDB", lembrou o deputado baiano.
Geddel também nega que esteja havendo qualquer atrito entre o PMDB e o presidente Fernando Henrique Cardoso. "Eu tive uma excelente conversa com o presidente", assegurava o líder peemedebista. Como prova desta boa conversa ele teve a garantia da indicação das nomeações dos aliados.Dentro do PMDB, a interpretação é de que as notícias sobre retaliação do governo ao partido estão sendo "plantadas" por caciques pefelistas, inclusive o senador Antonio Carlos Magalhães. Por isso, o principal objetivo do partido será neutralizar todas as ações de ACM, considerado a principal ameaça para o projeto de poder PMDB 2002. Para essa tarefa, foi destacado o líder e presidente do partido, senador Jáder Barbalho (PA).
"Estão querendo fazer intriga do PMDB, mas o fato é que o partido tem dado repetidas manifestações de apoio ao presidente Fernando Henrique", lembrou Geddel. "E a melhor forma para demonstrar apoio ao governo é na hora do voto".
Não era essa a disposição de alguns caciques do PMDB, no entanto, há três dias, antes da informação sobre as nomeações. Em diferentes momentos, Jáder Barbalho e o próprio Geddel manifestaram enfaticamente a insatisfação do partido com o presidente Fernando Henrique e criticaram abertamente a desarticulação política do governo, atribuindo à negligência dos líderes e articuladores a instalação da CPI dos bancos, que o Planalto gostaria de evitar.
"O PMDB manifesta suas inquietações publicamente, porque o partido está investindo na reafirmação de seus líderes perante a bancada", avalia um dos articuladores do governo.

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