Algumas estações da palavra no inferno
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Eduardo Galeano* 
Montevidéu, (AE-IPS) - Em 1995, a Associação Psiquiátrica Americana publicou um informe sobre a patologia criminal. Qual é
segundo os especialistas, o traço mais comum entre os delinquentes habituais? A inclinação para a mentira. Assim, querendo retratar o malfeitor característico, os psiquiatras americanos desenharam o perfeito "identikit" dos homens mais poderosos do mundo.
Em outro informe, publicado meio século antes, a mesma associação de pisquiatras havia diagnosticado que os delinquentes habituais mostravam "uma incapacidade crônica para aprender com a experiência". Agora, está claro: os ladrões de galinha e os encrenqueiros dos subúrbios aprendem com a experiência bem sucedida dos reis do dinheiro, da política e da guerra. Mais acima, nas cúpulas, a "inclinação à mentira" é tradição milenar e costume cotidiano. E desde do topo da piramide social se irradia a lição universal: Quem não mente, está frito.
A PALAVRA E A GUERRA
Como paradoxo do progresso tecnológico, cada dia estamos mais informados e mais manipulados. Depois das duas guerras contra o Iraque, que continua sofrendo bombardeios, foi a vez da Iugoslávia: outra maquinação do sistema que vende armas e cria pretextos.
Para descarregar seu dilúvio de mísseis sobre a Iugoslávia, o despotismo militar inventou uma "missão humanitária". O sensível coração das potências ocidentais não podia suportar a "limpeza étnica" de Milosevic contra os albaneses de Kosovo.
Entre outros instrumentos, a missão humanitária utilizou helicópteros chamados Apache e mísseis chamados Tomahawk.
Apache, Tomahawk: duas palavras que têm algo a ver com limpeza étnica, ocorrida precisamente no país que arrasou seus indígenas antes de ocupar-se em redimir o mundo.
Ante a indiferença ou o aplauso de quase toda a opinião pública internacional, os Estados Unidos e seus aliados acabam de celebrar, nos Bálcãs,.um auto-de-fé que lançou ao fogo a Carta das Nações Unidas, a Carta de Fundação da Otan, a Convenção de Viena e os Acordos de Helsinque. As grandes potências do Ocidente haviam mentido firmando, com a mão, tudo o que depois apagou com o cotovelo.
O escritor americano John Reed escreveu, em 1917: "As guerras crucificam a verdade".
A PALAVRA E OS BANQUEIROS
Aquele John Reed, o escritor, tinha sido amigo de Pancho Villa. Oitenta anos depois, outro John Reed é diretor-executivo do Citibank, e o Citibank é amigo de Raúl Salinas, o voraz irmão de quem foi, até há pouco, presidente do México.
"Temos uma visão de Gargantua - disse John Reed, o de agora -. Almejamos ter milhões de clientes. Bilhões de amigos",
Por essas coisas de amizade, o Citibank fez evaporar US$ 100 milhões de Raúl Salinas, que eram fruto do narcotráfico. Em nossos dias, o desaparecimento de pessoas é uma especialidade militar, e os banqueiros se ocupam do desaparecimento de dinheiro.
Em sua edição de 14 de dezembro de 98, a revista Time publicou as conclusões do Congresso dos Estados Unidos, que investigou o assunto: o Citibank organizou a viagem dos 100 milhões de narcodólares através de cinco países, e ajudou dom Juan a inventar empresas fantasmas e nomes de fantasia, até que sumiu de vista.
Segunda a revista Time, é improvável que os diretores do Citibank possam ser processados, porque o banco alega que "ignorava que seu cliente pudesse estar envolvido em atividades criminosas". O Citibank também afirma que "este erro não autoriza que seja desconhecido nossos esforços na luta contra a lavagem de dinheiro de origem ilícita".
Este apostulado de honestidade ocupa o terceiro lugar entre os bancos privados mais poderosos do mundo. Ou seja: o Citibank é um dos seletos membros do governo planetário, que decide tudo, até a frequência das chuvas, nos países devedores.
A PALAVRA E A AJUDA
Desventuras da palavra, impunidade de seus estranguladores: o poder prega com o exemplo. O poder jamais faz o que diz, nem diz o que faz, nem cumpre o que promete.
Em 1974, os países desenvolvidos se comprometeram a destinar 0.7% de seu Produto Interno Bruto à ajuda dos chamados "países em desenvolvimento", o que vinha a ser algo assim como uma compensação mínima pelo muito sumo que lhes tiram.
Hoje um juramento, amanhã uma traição, como diz o tango: em 1997, a ajuda chegou a apenas 0.2%. Nesse ano, a diferença entre o dito e o feito foi de US$ 120 bilhões. Segundo o economista espanhol Manuel Iglesia-Caruncho, a diferença entre o prometido e o entregue, somando apenas os últimos 12 anos, teria sido o suficiente para pagar toda a dívida externa dos chamado Terceiro Mundo.
A PALAVRA E A PUBLICIDADE
Hoje em dia, a publicidade tem a seu serviço o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.
"Busque a verdade": a verdade está na cerveja Haineken. "Você deve apreciar a autenticidade em todas as suas formas": a autenticidade fuma os cigarros Winston. Os sapatos esportivos Converse são "solidários" e a nova câmera da Canon se chama "Rebelde": "Para que você mostre do que é capaz".
No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: "A revolução está em nosso destino". A Microsoft convida ao heroismo: "Podemos ser heróis". A Apple propõe a liberdade: "Pense diferente". Comendo hamburguers Burger King, você pode manifestar seu inconformismo: "Às vezes têm-se que romper as regras". A resposta está no cartão de crédito Diners: "A resposta correta em qualquer idioma". Os cartões Visa afirmam a personalidade: "Eu posso". Os automóveis Rover permitem que "você expresse sua potência" e a Ford queria que "a vida fosse tão bem feita" como seu último modelo. Não há melhor amiga da natureza do que a Shell: "Nossa prioridade é a proteção do meio ambiente". Os perfumes Givenchy oferecem "eternidade"; os perfumes Dior, "fuga". Contra a dúvida, os desodorantes Gillete: "Para estar seguro de si mesmo".
A PALAVRA E A HISTàRIA
Em 1532, o conquistador Pizarro prendeu o Inca Atahualpa, em Cajamarca. Pizarro lhe prometeu a liberdade, se o inca enchesse de ouro uma grande habitação. O outro chegou, dos quatro cantos do império, e cobriu a habitação até o teto. Pizarro mandou matar o prisioneiro.
Desde antes, desde que as primeiras caravelas apareceram no horizonte, até nossos dias, a história das Américas é uma história de traição à palavra: promessas rasgadas, pactos negados, documentos firmados e esquecidos, enganos, emboscadas. "Te dou minha palavra", continua-se dizendo, mas poucos são os que dão, com a palavra, algo mais do que nada.
Não terá que se aprender, como em tantas outras coisas, com os perdedores? Os primeiros habitantes das Américas, derrotados pela pólvora, pelos vírus e as bactérias e também pela mentira, compartilhavam a certeza de que a palavra é sagrada, e muitos dos sobreviventes ainda assim acreditam:
"Dizem que nós não temos grandes monumentos", disse um indígena mapuche, no sul do Chile. "Para nós, a palavra continua sendo o grande monumento".
Na língua guarani, nee significa "alma", e também significa "palavra".
"A palavra vale - afirmou um indígena avá-guarani, no Paraguai - porque é nossa alma. Não precisamos colocá-la num papel, para que acreditem em nós".
As culturas americanas mais americanas de todas foram desclassificadas, por rivalidade, de ignorantes. Na sua maioria, não tinham escrituras. A Ilíada e a Odisséia, as obras fundadoras disso que chamam a cultura ocidental, também haviam sido criadas por uma sociedade sem escrituras, e suas palavras voam cada dia melhor. Oral ou escrita, a palavra pode ser instrumento do poder ou ponto de encontro. A desclassificação tinha, e continua tendo, outro motivo muito mais realista: estamos treinados para escutar e repetir as vozes do sucesso.
Por falar em vozes do sucesso, vale a pena mencionar a importância que a palavra, uma só palavra, tem tido durante o recente processo contra os militares que executaram a matança contra a comunidade indígena de Xamán, na Guatemala. A carnificina ocorreu em 1995, já no período que chamam de democrático, e havia uma montanha de provas que condenavam os assassinos; mas o assunto caiu em águas mornas. A secretária que transcreveu o auto de processamento havia cometido um erro de ortografia na qualificação penal: "Ejecusión (execução) extrajudicial", escreveu. (O certo em espanhol é ejecución, N.E.). Os advogados do exército sustentaram que o delito, como escrito, não existe. O procurador protestou: foi ameaçado de morte, e marchou ao exílio. Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de "Veias Abertas da América Latina", e "Memórias do Fogo".


