Washington, 07 (AE-ANSA) - Madeleine Albright está sendo questionada por sua atuação como secretária de Estado americana na guerra nos Bálcãs porque passou a Bill Clinton sua convicção, que por enquanto tem se mostrado equivocada, de que Slobodan Milosevic cederia ante o uso da força.
"A senhora Albright -disse um analista- foi escolhida por Clinton pela postura agressiva que demonstrou como embaixadora na ONU. O secretário de Estado anterior, Warren Cristopher, havia sido criticado por sua eterna busca de compromissos. Um falcão tomou o lugar de uma pomba, mas o resultado foi muito desapontador".
Albright estava convencida de que Milosevic aceitaria o acordo para Kosovo proposto em Rambouillet em vez de se arriscar a ser bombardeado pela Otan.
"Milosevic - afirmou a funcionária- entende apenas a linguagem da força", e toda a política americana nos Bálcãs foi baseada neste pressuposto.
"Consideramos - confidenciou um alto funcionário do Departamento de Estado ao Washington Post - quatro cenários. O primeiro, que (Milosevic) daria marcha a ré apenas ao sentir o cheiro de pólvora. O segundo, que teria necessidade de receber algum golpe para justificar a aceitação do acordo. O terceiro, previa que ele se comportaria com bravura, buscando a luta mas rendendo-se ao primeiro golpe no nariz".
"O quarto cenário - prosseguiu a fonte - contemplava que Milosevic reagiria como Saddam Hussein", ou seja, resistiria aos golpes e manteria-se aferrado ao poder.
Albright considerava improvável a última hipótese. Ela estava persuadida de que Milosevic era um tigre de papel em 27 de outubro, quando a Otan advertiu que utilizaria a força para obter o cessar- fogo em Kosovo.
"Este resultado - disse a secretária de Estado - não será obtido sem que a diplomacia seja apoiada pela a ameaça de uma intervenção armada".
O governo dos Estados Unidos propôs a conferência de Rambouillet supondo que Milosevic se comportaria como em Dayton, quando assinou a paz para a Bósnia sob a pressão da Otan.
Milosevic e os albaneses de Kosovo não foram chamados a Rambouillet para negociar, mas sim para aceitar em 15 dias, com eventuais e pequenas modificações, o acordo que os Estados Unidos haviam preparado para eles.
"Participar não basta", disse Albright. Milosevic foi advertido de que iria enfrentar "graves consequências" se não assinasse o acordo.
O otimismo da secretária de Estado, entretanto, não era compartilhado por todos. O diretor da CIA, George Tenet, havia alertado que, segundo suas fontes, Milosevic reagiria às ameaças com uma campanha de "limpeza étnica" em Kosovo.
Também o chefe do Estado Maior, Henry Shelton, afirmou que os bombardeios aéreos por si só não seriam suficientes para deter as forças sérvias.
Mas Albright acreditou que conhecia os Bálcãs e a Europa melhor do que os generais e os agentes secretos. Nascida na então Checoslováquia, duas vezes fugitiva, primeiro de Hitler e depois de Stalin, considerou Milosevic o último ditador na Europa e se arrogou a missão de detê-lo antes que fosse tarde demais.
Segundo fontes governamentais, sua visão inspirou o discurso de Bill Clinton justificando os ataques aos sérvios: os Estados Unidos devem intervir com resolução na Europa ao primeiro sinal de conflito ou serão arrastados para uma guerra mais ampla.
Albright consiguiu fazer com que Clinton adotasse sua estratégia, mas agora assinte mais uma vez nos Bálcãs as terríveis cenas de sua infância: centenas de milhares de civis empurrados pelas tropas de um ditador para os trens do exílio.

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