Em 1996, o paranaense Alexandre Fukuda, hoje com 13 anos, escreveu uma carta ao Papai Noel, como fazem milhões de meninos e meninas do planeta todos os anos. Àquela altura, os amigos de escola já haviam dito que a história do Velhinho era pura invenção; Alexandre não poderia esperar que a carta realmente chegasse às mãos de Noel.
Mas foi o que aconteceu. A carta chegou lá. E os assessores de Papai Noel acharam o endereço da família de Alexandre Fukuda na semana passada, depois de muita procura.
Noel mora em North Pole City (Cidade do Pólo Norte), nos confins do Alasca, onde a civilização termina para começar o gelo. Seu nome de batismo é Kris Kingle. A carta de Alexandre saiu de Uraí, Norte do Paraná, Brasil, viajou milhares de quilômetros e aportou no mais frio estado norte-americano, bem na sala do Papai Noel ‘‘oficial’’. Quem descobriu a correspondência - da qual Alexandre até se esquecera - foi o repórter Renan Antunes de Oliveira, da Agência Estado. O jornalista visitou a casa do Papai Noel em North Pole City duas semanas atrás e viu a carta do paranaense pendurada entre inúmeras outras.
A carta foi escrita quando Alexandre Fukuda cursava a 5ª série em Uraí e estava com 11 anos. Naquela ocasião, todos os alunos da turma escreveram correspondências com mensagens e pedidos ao Velhinho. Tarefa de escola. A professora Ana Adélia Marchini ajudou os estudantes na tradução dos textos para o inglês (afinal de contas, Papai Noel nos Estados Unidos é Santa Claus).
Ao Noel, por via das dúvidas, Alexandre Fukuda pediu de presente ‘‘um lança-foguetes e um computador’’. Segundo a diretora do Educandário Divina Pastora, irmã Yulie, o garoto é um excelente aluno. A escola existe há 45 anos em Uraí, sempre com a proposta de atender à população pobre. Dos 315 estudantes, 115 não pagam a mensalidade de R$ 100. Não é o caso de Alexandre, mas sua irmã Carina tem bolsa de estudo.
Quanto ao desempenho escolar de Alexandre Fukuda, o Papai Noel pode anotar: a reportagem da Folha teve acesso ao boletim do rapaz, e lá não tem nenhuma nota vermelha. Pelo contrário; quase todas ficam entre 9 e 10. ‘‘Gosto de matemática’’, diz.
Alexandre Fukuda sabe que o Noel do Pólo Norte pode até responder a sua carta, o que ainda não aconteceu. Mas ele tem consciência de que que o verdadeiro Noel está em Uraí: é seu pai, o agricultor Eduardo Itio Fukuda, 35 anos. Para a família Fukuda, assim como para tantos outros brasileiros, o Natal será magro. Mas o trabalho é intenso: o sítio está em plena colheita da uva. Alexandre, como já entrou de férias, ajuda a família a colher os cachos de uvas Itália, rubi e benitaka e a colocá-las em caixas para os compradores que vêm de São Paulo. Os Fukuda, cujo patriarca, o avô Nelson, chegou a Uraí há mais de 40 anos, ganham a vida com o cultivo da terra, assim como a maioria da população local. E não é fácil. ‘‘A agricultura está passando por muita dificuldade. Chegamos ao fundo do poço, a situação precisa melhorar’’, comenta Eduardo Fukuda.
Mesmo com as adversidades econômicas, o pai de Alexandre espera vender 35 mil quilos de uva neste final de ano. Com a chuva dos últimos dias e as estradas rurais cheias de barro, só é possível chegar às videiras usando trator. A labuta é grande no Sítio Fukuda, mas foi impossível conseguir este ano o montante para presentear o garoto com um computador. No momento, o casal Eduardo e Creusa Fukuda espera garantir o estudo e o bom ano novo de Alexandre e das irmãs Carina, 11 anos, e Carolina, 8. Só não deu para garantir que Alexandre virasse palmeirense como o pai. ‘‘Bem que eu tentei, mas ele acabou ficando são-paulino’’, diz Eduardo. O menino que escreveu há dois anos para o Papai Noel está crescendo, mas continua gostando muito de jogar futebol com os amigos.
Alexandre nem se lembra bem porque pediu um ‘‘lança-foguetes’’ ao Papai Noel há dois anos. Talvez o desejo reflita seu interesse pelas coisas do espaço, pela astronomia, pelas astronaves. Mal sabe Alexandre que em Londrina, 40 quilômetros a oeste de Uraí, há um grupo de pessoas que se especializaram em fabricar e lançar foguetes. Talvez dia desses Alexandre possa ver, bem de perto, um foguete riscar o céu em alta velocidade - já que ele não acredita mais na existência das renas voadoras do Papai Noel.
O garoto, bastante tímido e calado, hesita em responder o que pediria hoje de Natal. Mas parece que o interesse dele é mesmo pelos computadores. Na sala de informática do Educandário Divina Pastora, o bom aluno Alexandre Fukuda se sente mais à vontade e maneja o teclado com desenvoltura. No ano 2000, se tudo der certo, Alexandre deverá cursar o 1º colegial. O pai quer deixá-lo à vontade para escolher a atividade profissional no futuro: pode ser a agricultura, mas também pode ser o computador. Quem sabe? A irmã Carina, bem menos tímida que Alexandre, entra na sala dos computadores e vem chamar o pai Eduardo. É hora de o agricultor prosseguir na colheita das uvas. É tempo de Natal e de trabalho, mesmo debaixo de chuva.
Dos computadores, sai uma mensagem que o garoto Alexandre Fukuda escreveu junto com o colega Roberto Takemura, antes de passar para a 8ª série:
‘‘Não basta falar, é preciso que as palavras verdadeiras venham do nosso interior.’’
Uma frase para qualquer Papai Noel anotar. Ainda mais quando vem de um garoto calado como Alexandre Fukuda, nº 1 da chamada no Educandário Divina Pastora, na pequena Uraí, a milhares de quilômetros do Pólo Norte.Josoé de CarvalhoBom meninoAlexandre Fukuda: interesse por informática e futebol não atrapalham o desempenho na escolaPaulo Briguet

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