Geisy Rizzo desenhou na pele o círculo azul: "Já passei por uma situação de me darem soro glicosado por não saberem que eu era diabética"
Geisy Rizzo desenhou na pele o círculo azul: "Já passei por uma situação de me darem soro glicosado por não saberem que eu era diabética" | Foto: Gina Mardones



Técnica milenar, a tatuagem foi criada para identificar tribos e clãs, passou pela fase de arte marginal e hoje é usada para expressar a personalidade, tornando-se uma marca pessoal. Mas há um tipo de tatuagem que nada tem a ver com estética e que também vem se tornando tendência. A tatuagem funcional ganhou adeptos entre alérgicos e portadores de doenças crônicas que optam por expressar na pele as suas restrições médicas como forma de prevenção de intercorrências em caso de necessidade de atendimento médico de urgência.

Recentemente, a estudante de Nutrição Geisy Rizzo, de 32 anos, desenhou na pele o círculo azul símbolo universal da diabetes e especificou o tipo da doença do qual é portadora. O desenho foi feito no antebraço para facilitar a visualização e evitar problemas como o já enfrentado por ela. "Já passei por uma situação de me darem soro glicosado por não saberem que eu era diabética e em outra ocasião sofri um acidente de moto e só não recebi o soro porque eu fiquei consciente", recordou.
Geisy tem diabetes tipo 1 há 19 anos. A doença foi diagnosticada quando ela tinha 13 anos de idade e, desde então, ela sempre teve a preocupação de deixar bem explícitas suas restrições. "Tem um grupo de diabéticos do qual eu participo e nesse grupo sempre é dito o quanto é importante essa identificação porque um procedimento errado pode pôr a vida em risco", disse.
A estudante tem carteirinha que indica ser portadora de diabetes e já usou pulseira, mas considera a tatuagem mais eficaz por levar as informações gravadas na pele. "São coisas que incomodam e acessórios que às vezes você não carrega consigo. A tatuagem foi feita em local bem visível."
Uma tatuagem com tamanho entre seis e sete centímetros custaria em média R$ 250 em um estúdio em Londrina, mas Geisy não pagou nada pela dela. O desenho foi feito por meio de uma campanha idealizada pelo proprietário do estúdio Tattoo Society Londrina, Christian Yamamoto, que oferece dez tatuagens funcionais gratuitas por mês. A campanha começou no último dia 1º de fevereiro e não tem data para acabar, mas a procura foi tão grande que os horários disponíveis estão lotados até junho e os próximos agendamentos estão sendo feitos para julho em diante.
"Quando fizemos a postagem da campanha no Facebook, em dois dias já tinha 700 compartilhamentos. A divulgação foi muito rápida. A gente já fez de dez a 15 tatuagens desde que começamos com a campanha", contou o tatuador Apuka Henrique. Segundo ele, a ideia da campanha surgiu do desejo de aliar a arte à solidariedade. "A gente já fez tatuagem funcional para alguns clientes diabéticos que nos procuravam e meu pai é diabético e já passou por algumas situações. Por isso resolvemos ajudar", comentou.
A campanha está aberta a todos os interessados, mas existem algumas regras que precisam ser observadas. As tatuagens são feitas em pessoas a partir dos 16 anos de idade, mas menores de 18 anos têm de ter autorização do responsável legal com firma reconhecida em cartório; os desenhos não podem ter mais de duas cores e deve indicar claramente a diabetes; a doença deve estar controlada e é recomendável passar antes por avaliação médica. "Pesquisamos muito sobre a doença e não tem limitação se estiver controlada porque a tatuagem é na camada superficial da pele, é como se fosse um raladinho. Estando controlada a doença, a cicatrização é normal", garantiu Apuka Henrique.

A indicação dos tatuadores é que o desenho seja feito em uma parte bem visível do corpo, como antebraço ou pulso. O desenho pode ser trabalhado de uma forma artística pelo tatuador.
Os agendamentos devem ser feitos por mensagem enviada à página do Tattoo Society Londrina no Facebook. Os horários são marcados de acordo com a disponibilidade dos quatro tatuadores do estúdio que se revezam para atender os clientes que chegam até eles por meio da campanha.

"A gente já fez de dez a 15 tatuagens desde que começamos com a campanha", explica o tatuador Apuka Henrique, sobre ação gratuita realizada pelo estúdio
"A gente já fez de dez a 15 tatuagens desde que começamos com a campanha", explica o tatuador Apuka Henrique, sobre ação gratuita realizada pelo estúdio | Foto: Fabio Alcover



DEPOIS DO CÂNCER
Em Curitiba, o estúdio Verom Custom Tattoo também oferece tatuagens gratuitamente para mulheres que tiveram câncer de mama e desejam esconder ou, pelo menos, suavizar as marcas deixadas pela doença. Damaris Oltremari Barbosa teve dois casos de câncer de mama na família e depois de acompanhar de perto o tratamento, surgiu o desejo de amenizar o sofrimento de mulheres que passaram pela mesma situação. Junto com o marido, o tatuador Veron Veroneze, Damaris criou o projeto, que já tem três anos. "O projeto é destinado a todo mundo que fez mastectomia (retirada da mama). Fazemos a reconstrução da aréola e mamilo ou tatuagens para disfarçar a cicatriz", disse ela.

Para as mulheres que procuram o estúdio do casal, afirma Damaris, a tatuagem significa a retomada da autoestima, da vaidade e dos projetos pessoais. "É um ponto final na doença."
Para se submeter ao procedimento, é preciso autorização médica e o tratamento deve ter sido finalizado. "A tatuagem só pode ser feita se a quimioterapia e a radioterapia já tiverem terminado porque o tratamento influencia na cicatrização. E se a mulher for fazer cirurgia plástica, também deve fazer a tatuagem somente depois da cirurgia", explicou Damaris. Segundo ela, a maioria das mulheres atendidas tem entre 40 e 50 anos de idade e os desenhos preferidos por elas são aqueles mais delicados, "florais e bem femininos".

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