Alergia ao leite é causa de desnutrição
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domingo, 08 de abril de 2007
Vítor Cavalcanti<br>Agência Estado 
Pelo menos 25% das crianças com alergia à proteína do leite de vaca ou intolerância à lactose terão problemas de déficit nutricional. A falta de informação há muito deixou de ser o maior entrave para tratar essas crianças. As mães estão mais conscientes e atentas às reações que os filhos possam ter a algum tipo de alimento. Entretanto, o alto custo dos suplementos alimentares especiais é um fator que pesa e impossibilita, em muitos casos, o tratamento adequado.
''Essas crianças precisam mudar a dieta. Se estão sendo amamentadas, a mãe tem que parar de consumir qualquer produto que tenha leite de vaca. E isso leva a mãe a reduzir a amamentação'', comenta Ary Lopes Cardoso, chefe da Unidade de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. Diante da situação, o bebê precisa de uma outra fonte de alimento, que são os produtos sem leite de vaca conhecidos como fórmulas à base de soja ou hidrolisadas. ''Um hidrolisado, para uma criança de seis meses, custa entre R$ 1.500 e R$ 2 mil. Elas consomem uma média de oito latas mensais.''
No Hospital das Clínicas de São Paulo, há um serviço de encaminhamento automático para a Secretaria de Estado da Saúde, que fornece o produto que a criança precisa. Em algumas localidades, no entanto, isso só é possível através de liminares. Mas independente do caminho a ser percorrido, as mães devem tentar as alternativas, uma vez que o filho terá prejuízos futuros por conta dessa desnutrição na infância. ''A criança tem nos dois primeiros anos de vida a maior velocidade em termos de ganho de peso e estatura. Na puberdade, equivale a um terço do que a criança tem nos dois primeiros anos. Se você perder, terá sequelas, deixará de ser grande. O peso você recupera, mas a estatura não'', afirma Cardoso.
As estimativas apontam que perto de 7% das crianças desenvolvem alergia à proteína do leite de vaca. Segundo o especialista do Hospital das Clínicas, até 80% dessas crianças toleram a fórmula de soja como suplemento alimentar, um produto mais acessível e que custa cerca de R$ 45 a lata.
Os consensos norte-americano e europeu, no entanto, não preconizam o uso da soja. ''A criança que tem alergia ao leite pode desenvolver alergia à soja. As sociedades européia e americana não admitem a soja antes dos seis meses por haver essa sensibilidade'', explica Victor Nudelman, especialista em alergia e imunologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
Para Ary Lopes Cardoso, em países pobres o uso da soja é inevitável. Ele lembra que, mesmo no Brasil, não se recomenda a fórmula de soja antes dos seis meses, mas se não há condições de comprar a fórmula hidrolisada, não resta muita alternativa. ''Uso soja há mais de 30 anos e nuca vi problema. Mas as coisas estão mudando. Não sabemos até que ponto o alcance desses estudos é suficiente para colocar essas recomendações.''
No caso da intolerância à lactose, problema enzimático onde o organismo não processa o açúcar da composição do leite, o tratamento também pede mudanças na dieta. ''A criança se beneficia ao tomar leite sem lactose, como o leite de soja. Mas muitos produtos à base de soja não são balanceados corretamente, tem que haver uma proporcionalidade. O ideal mesmo é que se dê fórmula hidrolisada'', informa Nudelman.
O mercado brasileiro dispõe de alguns produtos para essas crianças. Um dos fabricantes é a empresa Support Produtos Nutricionais, que tem em seu portfólio as fórmulas Pregomin (fórmula hidrolisada isenta de proteína do leite de vaca), Neocate (dieta com aminoácidos puros e nutricionalmente completa) e a Aptamil Soja 1 (proteína isolada de soja e isenta de lactose e sacarose). No caso do Neocate, a indicação é para crianças com alergia à proteína do leite de vaca e que não se adaptam às fórmulas hidrolisadas como o Pregomin. Em termos estatísticos, equivale a até 3% dos casos.


