Alencar demite o chefe da Polícia Civil
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 1997
Agência Estado Rio 
Tasso Marcelo/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
ExoneradoPolicial civil coloca faixa preta nos braços do delegado Hélio Luz (c) que aderiu ao protesto da categoria contra o não envio de projeto de plano de cargos e salários da categoria à Assembléia LegislativaO governador do Rio, Marcello Alencar, demitiu ontem o chefe de Polícia Civil, delegado Hélio Luz. Alencar ficou irritado com declarações do delegado à imprensa, nas quais dava prazo até as 17 horas de ontem para o governador enviar à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) o projeto criando o plano de cargos e salários para a Polícia Civil. A demissão também foi via imprensa - o governador anunciou a decisão numa entrevista coletiva no fim da manhã. Luz foi informado depois.
Alencar justificou sua decisão dizendo que Luz sabia sobre o envio do projeto à Alerj anteontem e tomou as declarações como um desafio a sua autoridade. Desta vez ele pisou na bola, disse o governador. Como admitir que um delegado de Polícia que exerce função de confiança no governo dê a entrevista que deu?, questionou. Eu não pude esperar até as 17 horas, eu o demiti porque foi um desafio a um governante; ele sai até contra a minha vontade, mas por força do meu dever.
O próprio Hélio Luz não esperou que se expirasse o prazo dado para que a reivindicação fosse atendida. Antes mesmo das 17 horas ele cumpriu o prometido: aderiu ao movimento liderado pelo Núcleo de Defesa dos Policiais Civis, usando tarja preta em sinal de luto, conforme movimento da entidade lançado ontem e chamado Setembro Negro. Pela manhã, quando chegava à chefia de Polícia Civil, no Centro do Rio, ele foi abordado por representantes da entidade, que colocaram uma tarja em cada braço do delegado.
Menos de dez minutos depois, quando estava em seu gabinete, Luz recebeu um telefonema do secretário de Segurança Pública, general Nilton Cerqueira, que o informou sobre a exoneração. Imediatamente o delegado foi para a secretaria, onde almoçou com Cerqueira, responsável pela indicação de Luz para a chefia de Polícia Civil. O delegado saiu sorridente do encontro, mas lamentou a decisão do governador. Fui saído, brincou. Eu queria ficar para aplicar o plano para melhorar a qualidade da polícia, admitiu.
Mesmo assim ele garantiu que não ficou magoado com o governador. Houve uma divergência, o que é normal num estado democrático, afirmou. Mesmo depois de exonerado, Luz continuou cobrando o encaminhamento do plano de cargos e salários da Polícia Civil à Alerj. O plano, elaborado pela Comissão de Valorização do Policial (CVP), ligada à chefia de Polícia, prevê um aumento salarial para os policiais de até 220%, de forma escalonada, até o fim do governo Marcello Alencar, além da reduzir em quase 25% o atual efetivo da Polícia Civil, de cerca de dez mil homens.
O plano está pronto há dois meses e deveria ter sido enviado à Alerj até o fim da semana passada, conforme compromisso assumido com Hélio Luz pelo secretário estadual de Administração, Antônio Werneck. Esse foi o ponto de partida da crise que culminou com a exoneração de Luz. Decepcionado com a atuação do governo do Estado, o delegado cobrou providências. O plano não foi enviado em julho nem em agosto; a gente vai conciliando, mas tudo tem um limite, afirmou ele ontem.
O ex-corregedor-geral de Polícia Civil delegado Manoel Vidal foi nomeado no final da tarde de ontem chefe de Polícia do Rio.


