Alemanha quer atrair 20 mil técnicos estrangeiros
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de abril de 2000
Por Rodrigo Leite, especial para a AE 
Berlim, 08 (AE) - O governo alemão prepara-se para admitir no país 20.000 especialistas em computação de fora da União Européia, no que será a maior abertura à imigração na Alemanha desde 1973.
A medida, apresentada no início da semana passada e que deve entrar em vigor ainda este ano, é resultado da pressão da indústria alemã sobre o governo social-democrata de Gerhard Schroeder.
Esquentando a discussão, Schroeder qualificou de "indecente" e "hostil à economia do país" a campanha iniciada pela oposição democrata-cristã contra o projeto. Segundo o chanceler alemão, a presença de especialistas estrangeiros pode contribuir para a abertura de postos de trabalho adicionais.
As empresas ligadas ao setor de informática dizem que há um déficit de pelo menos 75 mil especialistas na área de tecnologia da informação, conhecida pela sigla em inglês IT.
Mas os sindicatos argumentam que há 58 mil engenheiros e 32.000 programadores desempregados na Alemanha. São pessoas que poderiam preencher as vagas de que o mercado necessita, mas não têm capacitação para isso.
Trata-se normalmente de profissionais mais velhos, que não sabem, por exemplo, criar um página na Internet ou organizar uma rede interna de computadores. Para melhorar a formação dos jovens alemães e reciclar especialistas mais velhos, o governo promete, paralelamente à abertura da imigração, destinar US$ 600 mil para os cursos técnicos superiores.
A vinda dos especialistas de fora foi anunciada por Schroeder como uma medida de emergência para que a Alemanha não fique para trás na corrida tecnológica.
Quem aceitar o convite poderá permanecer no país no máximo por cinco anos. A iniciativa é conhecida na Alemanha pela expresgreen card, adotada nos EUA. É assim que os americanos batizam a permissão para um estrangeiro viver e trabalhar nos Estados Unidos. A diferença é que o green card alemão será temporário.
Mesmo assim, espera-se que haja problemas com os novos imigrantes. O ministro do Interior, Otto Schilly, acha inevitável que alguns acabem ficando além do limite estipulado, seja ilegalmente ou na eventualidade de se casarem com uma alemã ou um alemão. "Devemos tentar evitar os erros dos anos 50 e 60", diz Schilly, comparando os imigrantes qualificados dos próximos meses aos "trabalhadores convidados" que vieram fazer serviços braçais naquela época e acabaram instalando-se definitivamente no país.
Uma pesquisa publicada no começo do mês pelo jornal popular Bild mostrou que 56% dos alemães estão contra o projeto. Entre os desempregados, o número sobe para 75%. Quem melhor encarna a resistência à nova leva de estrangeiros é Juergen Ruettgers, candidato da União Democrata-Cristã (CDU) ao cargo de chanceler da Renânia do Norte-Vestfália, Estado mais populoso do país e reduto das empresas de tecnologia da informação.
Na sua campanha, ele criou o slogan "Kinder statt Inder" (Crianças em vez de indianos). Ele quer dizer com isso que incentivos para o crescimento populacional e a educação são a sua receita para que no futuro não faltem profissionais alemães em áreas estratégicas.
Considerada racista até por alguns colegas de partido de Ruettgers, a frase explora uma nova figura do imaginário popular alemão: o indiano oriundo de bolsões de alta tecnologia daquele país, que estudou em boas escolas nos EUA ou na Inglaterra e agora está pronto para ocupar um emprego na Alemanha, com salários médios iniciais de R$ 6 mil a R$ 8 mil por mês.
"É completamente antiprodutivo quando alguém, motivado por interesses eleitorais, contesta medidas intermediárias necessárias e que, se não adotadas, podem prejudicar a economia do país", reagiu Schroeder.
Além da Índia, os técnicos mais cobiçados são os da Rússia, do Leste Europeu e da China. Hoje, a imigração de um profissional só é possível se houver interesse público (como professor ou pesquisador, por exemplo), ou durante períodos curtos, de cerca de um ano. Contratar um estrangeiro exige paciência com a burocracia e um custo que gira em torno de R$ 50 mil, mas mesmo assim as empresas estão recorrendo a isso.
"Na área de IT é como no futebol. Quem quer ganhar a Copa dos Campeões precisa de uma equipe internacional. Só com jogadores alemães não dá", compara Reinhard Hoffmann, gerente de recursos humanos da empresa de software Intershop, em Jena, sudeste da Alemanha. Lá trabalham chineses, coreanos, turcos e russos.
Tanta competição se explica pelo fabuloso potencial da tecnologia da informação na Alemanha. Para este ano, a expectativa de crescimento nessa área é de 35%. As 160 empresas filiadas à Associação Federal de Tecnologia da Informação faturaram em 1998 quase R$ 4,5 bilhões. Todas essas empresas hoje têm vagas em seus laboratórios e calcula-se que o déficit de profissionais cresça à razão de 60 mil por ano.
A Siemens, gigante da indústria alemã, é a empresa mais necessitada de gente, com mil postos abertos; a SAP, importante centro de desenvolvimento de software, está com 362 lugares vazios. A escassez atinge também empresas que não são diretamente ligadas à informática, mas precisam dela.
É o caso da Debis, subsidiária da DaimlerChrysler, que quer contratar 640 especialistas em computação. Outras áreas da indústria alemã, como a metalurgia e a biotecnologia, também reclamam da falta de pessoal qualificado, mas o governo já anunciou que não pretende estender o green card a outros setores.
A falta de profissionais não é só um fenômeno alemão. Em toda a União Européia faltam 1,5 milhão de especialistas. "Os Estados Unidos também foram buscar gente quando precisaram", diz o finlandês Erkki Liikanen, comissário europeu da indústria. Foi com incentivo à imigração de profissionais qualificados que EUA e Japão resolveram seu problema de mão-de-obra, quando a indústria de tecnologia começou a crescer de forma explosiva, nos anos 80.
Nos EUA há 179 mil trabalhadores estrangeiros na área de IT.
Outros países também abriram as portas para os "imigrantes cibernéticos": Japão, 94 mil; Coréia do Sul, 42 mil; Canadá, 42 2 mil; e Reino Unido, 38 mil.
Há quem ache, porém, que a indústria tenta lucrar à custa dos estrangeiros. Analisando o censo de 1990, o pesquisador Norman Matloff, da Universidade da Califórnia em Davis, chegou à conclusão de que os estrangeiros no Vale do Silício (região que concentra as empresas de tecnologia) ganhavam em média US$ 7 mil a menos do que os americanos (US$ 50 mil).
"Isso não vai acontecer aqui", diz o economista Stephan Wimmers, do Congresso Alemão da Indústria e Comércio, entidade que reúne 3,5 milhões de empresas e defende abertura ainda maior do que a oferecida pelo governo. "Precisamos pagar bem, porque muitos países estão competindo com a Alemanha por esses profissionais."
No Brasil, os profissionais interessados no programa devem procurar a Câmara de Comércio Brasil-Alemanha (Rua Verbo Divino, 1.488, São Paulo, CEP 04719-904, tel. 5181-0677).


