Alemanha prostesta contra imperialismo linguistico na UE Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 02 (AE) - A Alemanha não comparecerá à reunião dos ministros da Indústria dos 15, em Helsinque (Finlândia). Por essa política da "cadeira vazia" (aliás, usada com frequência pelo general De Gaulle), o chanceler Gerhard Schroeder, deseja protestar contra o imperialismo linguístico do inglês e do francês na União Européia.
Explicação: não há problemas quanto às reuniões oficiais da União Européia. Os debates são traduzidos para os 11 idiomas desse mosaico linguístico que é a Europa. Mas, nas reuniões informais, o dispositivo de tradução não pode ser igualmente amplo, pelo que os discursos são traduzidos para apenas três línguas: a do Estado que preside a organização no momento (em turnos de seis meses), o francês e o inglês.
Nos últimos anos esse drama linguístico foi encoberto pelas presidências exercidas pela Alemanha, áustria e Luxemburgo. Mas agora quem preside é a Finlândia. Resultado: os discursos serão vertidos ao finlandês, ao francês e ao inglês.
Pelo que os alemães estão furiosos. O que é compreensível, uma vez que, com seus 90 milhões de praticantes, o alemão é a língua mais falada na UE. A esse argumento, aqueles que não querem que o alemão seja alçado à categoria de língua oficial, retrucam que, uma vez adotado tal esquema, por que então desconsiderar duas outras línguas gloriosas: o espanhol e o português?
O descontentamento alemão pode ser considerado em vários níveis, o linguístico e o político.
Do ponto de vista político, Schroeder iniciou mal sua gestão, tendo sido menos bem-sucedido do que o inglês Tony Blair na tentativa de fabricar um socialismo liberal. Pelo que tenta dourar seu brazão, defendendo as prerrogativas alemães com unhas e dentes.
Há quem diga que essa insistência também se deva ao fato de a capital alemã não ser mais a pacífica cidade renana de Bonn, que dirigiu a Alemanha desde o fim apocalíptico do nazismo em 1945, tendo-se essa capital reinstalado na histórica Berlim. Alguns temem que essa "recentralização" do país, na cidade que serviu inicialmente à grandeza e depois aos delírios alemães, só desperta maus sonhos. Mas tais temores parecem-nos irreais.
Quanto ao aspecto linguístico encontramo-nos diante de um novelo confuso. Por curioso que pareça, durante os 40 anos da edificação da UE a questão da linguagem jamais foi abordada. No entanto, a língua é o elo mais primitivo, mais visceral, mais maternal entre os habitantes de uma comunidade. Se conseguiram constituir uma federação pujante, os Estados Unidos o fizeram por dispor, desde suas origens, desse cimento formidável que é a língua inglesa.
Quanto à União Européia, a carência de uma língua comum constitui um handicap à fusão dos espíritos e dos sonhos.
Infelizmente, uma unificação linguística é impensável. Há ainda dois séculos uma eventual Europa unida poderia confiar à língua latina o papel de idioma comum, apta a "federalizar" as diferentes línguas nacionais. Hoje apenas alguns velhos cardeais, professores de longas barbas ou humanistas caducos ainda entendem o latim. Até mesmo as missas são celebradas em idiomas nacionais. Pelo que, desde o começo, a Europa estava fadada a conservar uma "língua desunida". No início dos tempos foi para punir os homens, por terem querido conquistar o céu graças à torre de Babel, que o Eterno condenou os povos a terem línguas diferentes.





