Alckmin anota em caderno reivindicações de eleitores18/Mar, 19:46 Por Vera Rosa São Paulo, 18 (AE) - Com um caderno na mão para anotar "as tarefas de prefeito", o vice-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), de 47 anos, passou por maus bocados na noite de quarta-feira (15). Depois de cinco dias das denúncias de corrupção feitas pela primeira-dama da capital paulista Nicéa Pitta, ex-mulher do prefeito Celso Pitta (PTN), Alckmin foi visitar a zona leste convencido de que aquele era o momento para impulsionar a campanha à Prefeitura, empacada nos 2% das intenções de voto. Mas, mesmo entre tucanos, ouviu cobranças. No corpo-a-corpo com gente humilde, Alckmin falou da fila de precatórios e da urbanização de favelas com dinheiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ninguém entendeu nada. Para completar, ainda levou bronca de eleitores que, interessados em coisas mais práticas, reclamaram da falta de segurança. "Nós votamos no governador Mário Covas e, por extensão, no sr., para que vocês tivessem pulso, tomassem posição", esbravejou o comerciante Cícero Nélson Silva dos Santos. "O Celso Pitta deita e rola e parece que vocês estão correndo dele." Diretor do 7 de Setembro Futebol Clube, Santos queria que o vice-governador fizesse "a cabeça" de Covas para que ele decretasse intervenção na Prefeitura. Alckmin tentou explicar que o governo paulista não tinha essa intenção. Mas não conseguiu traduzir o que dizia. "Se fôssemos decretar intervenção aqui, teríamos de fazer isso primeiro em dezenas de outros municípios", afirmou o tucano, ao chegar à sede da Sociedade Amigos de Vila Progresso, em Itaquera. "Há várias prefeituras que emitiram títulos e não pagaram os precatórios", emendou o vice, referindo-se às dívidas decorrentes de sentenças judiciais. A interrogação tomou conta da fisionomia de Santos. Daí em diante, ele começou a reclamar de tudo: do prefeito, que não mandava limpar o terreno do 7 de Setembro Futebol Clube e do governador, "que está deixando a desejar nesse segundo mandato, principalmente na área de segurança". Antes de ir embora, Alckmin ainda ouviu as queixas de José Deuzimar Dantas, diretor do Colégio Paschoal Dantas, na Avenida Pires do Rio, em São Miguel Paulista. "Toda semana se rouba carro lá", protestou. "Tenho colaborado com as campanhas do PSDB, mas, assim, não dá: se vocês forem no colégio agora, vão ver uns 30 alunos sendo assaltados." Eram quase 20 horas e a visita ficou "para outro dia". Dantas reivindicou um posto policial. O vice-governador garantiu: "O que tem dado resultado é a polícia comunitária." Anotou no caderno o pedido, como se fosse lição de casa. Mas não prometeu nada. "Vamos averiguar", disse. Nas andanças pela zona leste, o deputado Walter Feldman (PSDB), coordenador da campanha de Alckmin, saía em socorro do candidato sempre que o discurso de prefeiturável era interrompido por eleitores descontentes com a administração Covas. "É para resolver esses problemas de segurança e transporte que precisamos ter governos sintonizados, do mesmo partido", assegurava Feldman. Pura estratégia. Na tentativa de evitar que Alckmin fique na defensiva, o tucanato baterá nessa tecla como um dos motes da propaganda eleitoral. Preocupado em não fazer campanha no horário de expediente, o vice-governador só deixou o Palácio dos Bandeirantes no fim da tarde. No Jardim Robru, em São Miguel Paulista, viu de perto o drama dos moradores que vivem em áreas de risco, à beira do Córrego água Vermelha, e sofrem com as enchentes. Naquele mesmo dia, a Creche São Miguel Arcanjo, mantida por uma entidade filantrópica em convênio com a Prefeitura, havia fechado por falta de segurança. "Não sei como vai ser; são 150 crianças que vão ficar à toa, no meio da rua, e eu perdi meu emprego de 14 anos", chorava a servente Laurita Ribeiro Dantas. Ao saber que Alckmin era médico, a dona de casa Virgínia Moreira dos Santos, de 67 anos, levou-o até seu barraco, fincado bem na frente de um córrego menor e sem nome, imundo e malcheiroso. Virgínia mora ali, em situação extremamente precária, com o filho de criação, uma neta, duas bisnetas e um cachorro, preso na corrente. Mais adiante, a empregada doméstica Liduína Chaves contou que morava de favor num quartinho perto do córrego, com marido e três filhos, porque a enchente levara sua casa."O que o sr. pode fazer por nós?", perguntou Liduína a Alckmin, de sopetão. Com jeito de professor, o tucano falou pausadamente. "Estou anotando as tarefas de prefeito: o correto aqui é urbanizar a favela, fazer a canalização do córrego e remover as famílias em área de risco", afirmou o vice-governador. Liduína ficou muda. Diante do ar de espanto dela, Alckmin prosseguiu. "Existe um programa da Prefeitura que se chama Procav e tem recursos do BID", informou ele, numa referência a um projeto de nome quilométrico, intitulado Programa de Canalização de Córregos, Implantação de Vias e Recuperação Ambiental e Social de Fundos de Vale. Dos US$ 544 millhões destinados ao Procav, 55,5% vêm de financiamento do BID. "Nem sei que bicho é esse", disse a empregada doméstica. "Eu só queria uma solução." Depois, dirigindo-se à jornalista, pediu: "Moça, fala com ele pra dar uma força pra gente." Alckmin continuou copiando tudo no caderno. "Vamos recapitular para ver se enumerei corretamente", repetia, ao citar os problemas por ordem de prioridade. Ao lado do "guia" tucano Messias José da Silva, presidente da União dos Moradores da Cidade Nova Robru, o vice-governador andou em ruas de terra e parou diante de uma construção abandonada, cercada por mato. Erguida na gestão do ex-prefeito Paulo Maluf (1993-1996) para ser uma oficina comunitária, a casa foi destruída por vândalos. "Agora, vocês acham que ela deve ser recuperada para servir de oficina ou para um programa de saúde da família?", quis saber Alckmin. "Tanto faz, aqui todo mundo é do partido do Messias e o que ele falar tá falado", respondeu José Laureano, confessando que se tratava de um reduto tucano. "Imagine se não fosse", ironizou Sebastião Pereira da Silva. Era um dos únicos defensores de Celso Pitta na Favela do Robru.