Pristina, 03 (AE-AP) - Albaneses étnicos aparentemente pretendem expulsar sérvios e ciganos numa campanha de intimidação e de assassinatos que coloca em sério risco o objetivo ocidental de um Kosovo pacífico, multiétnico, denunciaram hoje (03) dois grupos de direitos humanos.
Um relatório de 18 páginas do Human Rights Watch, baseado em Nova York, inclui assassinatos, sequestros e abusos que, segundo o grupo, não podem ser totalmente explicados pelo desejo de refugiados albaneses étnicos retornando de se vingarem de atrocidades passadas.
As alegações foram corrobadas em trechos de testemunhos de ciganos, ou romas, colocados à disposição da ASSOCIATED PRESS pelo Centro Europeu dos Direitos dos Romas.
Os dois grupos implicaram o rebelde Exército de Libertação de Kosovo na maioria dos abusos. Eles também afirmaram que a Otan e as Nações Unidas parecem estar mal preparadas para parar com a violência nas sete semanas desde que elas entraram em Kosovo.
O relatório tem nefastas implicações para o Ocidente, que garantiu que o objetivo da campanha de bombardeios de 78 dias da Otan era garantir um Kosovo pacífico, etnicamente diverso. Proeminentes visitantes como o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, e a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, têm pedido aos albaneses étnicos para porem um fim à violência.
Abusos citados pela Human Rights Watch vão de o assassinato a tiros de 14 fazendeiros sérvios num campo de trigo em 23 de julho, a ameaças contra três idosas sérvias, algumas vezes com armas apontadas, por não outra razão aparente do que a decisão delas de ficarem na vila delas depois que seus vizinhos fugiram.
"A intenção por trás de muitos dos assassinatos e sequestros que têm ocorrido na província desde o início de junho parece ser a expulsão dos sérvios de Kosovo e a população roma, mais do que apenas um desejo de vingança", considerou o relatório.
"Esta explicação é sustentada por esforços mais diretos e sistemáticos para forçar sérvios e romas a deixarem suas casas". Segundo o relatório, "bem mais de 164 mil sérvios já fugiram de Kosovo", junto com um "significante" número de ciganos, acusados por muitos albaneses kosovares de ficarem do lado dos sérvios durante a campanha de bombardeio da Otan que forçou a Iugoslávia a aceitar um plano de paz.
A Human Right Watch também afirmou que a Kfor, a força de paz da Otan, parece não ser adequada para trabalho de polícia.
"A preocupação da Kfor de proteger suas próprias forças, diferentes interpretações sobre seu mandato... e a falta de experiência em policiamento civil resultam numa resposta inadequada a ataques e ameaças contra minorias", analisou.
Oficiais da Otan reconheceram a necessidade de uma força policial internacional - planos da ONU pedem por 3.000 a ser estabelecida em breve - mas defenderam seu trabalho.
"Temos implementado leis e ordens básicas", disse hoje o porta-voz da Kfor, Roland Lavoie, destacando que mais de 700.000 refugiados retornaram, o índice de homicídios foi reduzido à metade e as pessoas estão voltando ao trabalho. "Mas não podemos ser complacentes. Sem a presença da Kfor, a situação teria sido pior".
A Human Rights Watch não chegou a acusar o ELK de atrocidades específicas, mas afirmou que "a frequência e severidade de tais abusos jogam sobre a liderança do ELK a responsabilidade de tomar ações rápidas e decididas para evitá-las".
Uma vítima citada pelo Centro Europeu de Direitos dos Romas, baseado em Budapeste, disse que foi levada para uma sala na vila de Drenovce, nas proximidades da fronteira com a Albânia, para ver um companheiro cigano que havia sido violentamente espancado.
"Ele levantou sua camisa e me mostrou suas costelas", relatou o homem, identificado apenas por suas iniciais. "Seu peito estava todo preto". Então os homens, alguns com uniformes do ELK, voltaram-se para ele.
"Eles me chutaram em todas as partes do corpo, inclusive nas genitálias", disse ele. "Eu não podia enxergar, porque meus olhos estavam cheios de sangue". Outros homens entrevistados pelo centro dos direitos dos romas também relataram espancamentos, ameaças e intimidações cometidos por pessoas com uniformes do ELK.
Líderes do ELK negaram novamente qualquer envolvimento em abusos e prometeram trabalhar com a Otan.
"Digo categoricamente que não foram nossos soldados", disse Lirak Celaj, um porta-voz do ELK no norte de Kosovo. "E não esqueça que você pode comprar uniformes do ELK quase em todos os lugares da Albânia e em outros lugares por apenas 39 marcos alemães (US$ 16)".
Sublinhando a situação, foram noticiados outros assassinatos hoje, incluindo a morte de uma mulher de 90 anos em Pristina. Segundo a agência de notícias estatal iugoslava Tanjug, ela foi encontrada estrangulada na banheira de seu apartamento. A Kfor informou que dois albaneses foram detidos em conexão com o caso.

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