Vila Xiaoshuiquan, China (AE-AP)- Tang Yunzhu prepara uma refeição pobre composta por batatas e macarrão instantâneo num pequeno fogão cujo combustível é a palha e esterco de burro. Vegetais são raros porque são difíceis de produzir nos montes ressequidos. Para manter seu pequeno jardim com alguns vegetais e plantas, Tang tem de irrigá-lo com a água suja das lavagens.
As pessoas que vivem nestas montanhas superpovoadas, que sofreram forte processo de erosão na região leste de Qinghai, uma província que faz fronteira com o Tibete, estão entre as mais pobres da China. Muitas estão ainda em situação pior do que Tang: seus filhos jamais foram à escola e não dispõem de eletricidade. Ajudas emergenciais oferecidas pelo governo impedem que morram de fome.
Esta é razão pela qual o governo central, com a ajuda do Banco Mundial, planeja transferir 57.800 destes lavradores para terras que possam ser irrigadas, a 450 quilômetros dali, na região central de Qinghai, denominada vale do Qaidam.
Este é outro exemplo, bem ao gosto do governo chinês, do uso de assentamentos de grandes massas para promover a engenharia social no país. Dezenas e milhares de pessoas são transferidas para terras melhores, numa tentativa de luta contra a pobreza ou centenas de milhares mudam de cidade a fim de abrir caminho para enormes represas. E, como outros projetos deste porte, este esforço para ajudar os habitantes das montanhas do leste do Qinghai já provocou controvérsias. Seus críticos, o governo americano entre eles, dizem que a criação de 19.200 hectares (47.000 acres) de terras para irrigação irá prejudicar o meio ambiente, assim como as culturas e as vidas dos residentes tibetanos e mongóis que vivem neste vale alto e seco.
O pesquisador americano Daja Meston e o estudioso australiano Gabriel Lafitte estavam tentando estudar o impacto dessas mudanças quando foram, juntamente com seu tradutor tibetano, Tsering Dorje, presos no dia 15 de agosto, no hotel onde estavam hospedados, próximo ao local do projeto.
Apesar da região não ser restrita e a China ter prometido ao Banco Mundial que estrangeiros teriam acesso à área do projeto, o governo chinês lida muito mal com pessoas que criticam sua políticas. A restrição de acesso a jornalistas e pesquisadores é rotineira. Meston, um defensor dos direitos dos tibetanos, e Lafitte foram interrogados e ameaçados. Meston caiu ou pulou de uma janela no terceiro andar (as circunstâncias permanecem mal esclarecidas), sofreu ferimentos internos, teve alguns ossos quebrados e uma séria lesão na coluna vertebral.
Depois de um período no hospital de Qinghai, ele foi mandado de avião para Hong Kong, no dia 26 de agosto, para tratamento. Lafitte, que foi deportado, disse que teme pela vida de seu tradutor, cujo destino é desconhecido.
Lafitte e Meston queriam saber como os mongóis étnicos e tibetanos da área do projeto vêem os planos do Banco Mundial para sua região, que é historicamente parte do Tibete e onde os mongóis têm vivido por mais de 500 anos.
O projeto de assentamento trará mais chineses muçulmanos e pessoas como a senhora Tang e seus companheiros de vila, que somam mais de 93% da população nacional da China. Tibetanos e mongóis irão se tornar uma pequena minoria em suas terras ancestrais e alguns terão de abandonar seus tradicionais hábitos nômades. A mudança do curso das águas do rio Xiangride também irá afetar o habitat do deserto.
O Banco Mundial aprovou o projeto de assentamento, avaliado em US$ 80 milhões em junho e concordou em financiar metade dos custos, mas adiou o pagamento de ajuda financeira enquanto espera a inspeção de uma equipe independente, o que deve acontecer em outubro. O banco acredita que promover a mudança das pessoas da montanha é a única solução para o problema e afirma que não há outro local para enviá-las.
Críticos estrangeiros, entre eles o governo norte-americano, o Dalai Lama e ambientalistas, discordam. Eles argumentam que a prefeitura local pode perder sua designação de área autônoma tibetana-mongol e, consequentemente, disponibilizar menos postos públicos para minorias e menos apoio para educação bilíngue e a preservação cultural. Funcionários da província dizem que a categoria de área autônoma não será alterada. "O governo fará tudo o que for possível para proteger a religião, a cultura e as formas de vida das pessoas em todos os cantos da China", disse o vice-ministro das finanças, Jin Liqun. "Esta política será aplicada com vigor na área para onde essas pessoas serão enviadas".
O banco promete que os 2.763 mongóis e tibetanos, que irão perder parte de suas áreas de pastagem e a facilidade de acesso pela área, serão recompensados com campos irrigados, locais para uma casa e 850 yuan (cerca de US$ 100) por pessoa. Passagens cercadas serão construídas para que os rebanhos possam mover-se pelas áreas irrigadas.
O projeto tem diversas metas: reduzir a pobreza, fazer com que hordas de nômades adquiram um modo de vida mais estável e fornecer comida aos trabalhadores que extraírem petróleo, carvão
sais de potássio, zinco e outros minerais do vale do Qaidam.
De acordo com o vice-governardor Liu Guanghe, o Qinghai é pobre porque não recebe apoio financeiro para a exploração do vale do Qaidam . "A longo prazo, o vale pode e deve se desenvolver".
Para o Dalai Lama, governador do Tibete no exílio, o plano de assentamento irá marginalizar mongóis e tibetanos e agredir o meio ambiente.

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