Alvorada do Sul – O naufrágio do barco-hotel "Sonho do Pantanal" ainda é um pesadelo que permanece vivo na memória da pequena Alvorada do Sul, município com pouco mais de 10 mil habitantes na Região Metropolitana de Londrina, de onde partiram 10 turistas para a pescaria no Rio Paraguai, um programa entre amigos que terminou em tragédia no final da tarde do dia 24 de setembro de 2014. Seis alvoradenses-do-sul morreram e outros quatro foram resgatados com vida entre Porto Murtinho (MS) e a cidade paraguaia de Carmelo Peralta. Após um ano, sobreviventes e familiares buscam a superação na fé e na ciência. Além das orações e o apoio da paróquia de Alvorada do Sul, as vítimas também contam com acompanhamento psicológico oferecido pelo município.
"Não tem como fugir da memória. Ainda tenho pesadelos que estou afundando, mas depois acordo e percebo que foi só mais um sonho ruim", revelou o agricultor Valdecir Fernandes Freitas, 48 anos. Ele evita conversar sobre o assunto quando encontra os outros sobreviventes da tragédia, que ainda levou a vida de turistas de Sabáudia e Londrina.
O agricultor lembrou que estava no fundo da embarcação, parte que afundou primeiro durante a forte chuva e ventania no Rio Paraguai, e para sobreviver nadou cerca de 300 metros até ser resgatado por uma comunidade indígena. "O tempo fechou e a gente pediu para o dono da chalana encostar na margem, mas depois a chuva parou e continuamos a viagem. Em seguida, a tempestade veio e afundou o barco rapidamente. Como eu sabia nadar, não coloquei o coleta salva-vidas, o que evitou que eu ficasse preso dentro da embarcação", recordou.
Freitas disse que recebeu apoio de psicólogos em Porto Murtinho após o resgate e buscou conforto na religião quando voltou para casa. "Me apeguei em Deus e vou sempre na missa. Mas, mesmo passando vários anos acho que vai ser difícil esquecer. A gente saiu para se divertir e a viagem acabou virando um pesadelo", comentou. Durante o último ano, o agricultor superou o trauma e voltou a pescar no próprio barco. "Eu vejo como o tempo está antes de sair e controlo o barco. Mas nunca mais vou pescar de chalana", acrescentou.

AJUDA PSICOLÓGICA


A família de Roberto Vilhana, o último turista encontrado preso na embarcação, recebe atendimento psicológico do município de Alvorada do Sul. "O corpo estava dentro da embarcação e foi encontrado uma semana depois do naufrágio. Na primeira noite, a gente ainda tinha esperança que ele estivesse vivo. Depois, o medo era de que o corpo não fosse localizado. Amigos e parentes foram até Porto Murtinho para acompanhar as buscas e passar informações para a família", lembrou o sogro de Vilhana, Osmar Mendes, que ainda é acompanhado por uma psicóloga. A viúva Janaína Mendes Vilhana recordou que o marido não gostava de pescar, mas que pagou a viagem durante um ano pois tinha muita vontade de conhecer o pantanal sul-mato-grossense. "Só quem passa por isso sabe o quanto é sofrido. Por isso, procurei o acompanhamento psicológico e também levei meu filho mais velho, que tem 12 anos. Ele parou de ir, pois era muito difícil lembrar da morte do pai toda semana", comentou.

MISSA

Janaína e Márcia Garcia Orlando, viúva de Lucas Vagner Orlando, estão organizando junto com outros familiares das vítimas do naufrágio uma missa na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro na semana que a tragédia completa um ano. "A minha força e consolo para continuar vieram da fé em Deus. Foram muito difíceis os últimos meses, meus filhos passaram pelo acompanhamento de psicólogos na escola e queremos agradecer a superação neste primeiro ano, além de rezar pelas almas das vítimas", disse Márcia.
Ela guarda as últimas fotos do marido, realizada durante a pescaria, que foram encontradas na máquina fotográfica de um dos sobreviventes após a retirada da embarcação de dentro do rio. "Ele trabalhava comigo, fazia parte das atividades da igreja e ia sempre junto comigo para Londrina. Uma parte de mim foi embora."


Câmera de vigilância da Marinha flagrou o momento em que a embarcação "Sueño Del Pantanal" é atingida pela forte tempestade no Rio Paraguai
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