Ainda há óleo na Baía de Guanabara, denunciam pescadores
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Roberta Jansen e Adriana Ferreira 
Rio, 22 (AE) - Dois meses depois do vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo combustível da Petrobras ainda há placas de óleo no fundo da Baía de Guanabara, no RJ, principalmente perto das praias do município de Magé, uma das regiões mais atingidas pelo acidente. A denúncia foi feita hoje por pescadores das comunidades locais que afirmam não conseguir vender peixe por causa da poluição. "É óleo puro", disse Francisco Alexandre da Silva, de 20 anos, exibindo as mãos cheias de petróleo.
De acordo com os pescadores, peixes que vivem no fundo da baía, como o bagre e a tainha, além do camarão, estão sendo intoxicado. "Eles estão comendo esse óleo", afirmou o pescador Antônio Gomes, de 38 anos, que há 17 pesca na praia de São Lourenço, em Magé. "Ninguém quer comprar peixe até porque alguns têm cheiro de óleo", denunciou o pescador Luiz Cláudio dos Santos, de 25 anos. "Estamos parados há mais de 50 dias; nunca houve algo assim", disse o pescador Valter de Oliveira, de 44 anos.
Os pescadores contestam o laudo do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que liberou a pesca há um mês. "O laudo foi feito com base em peixes tirados apenas de um lugar", disse o pescador Wanderley Diniz, de 44 anos. "Também não pegaram espécies diferentes: tem peixe que nada por cima, mas outros vivem no fundo."
Os pescadores acusam a Petrobrás de, na tentativa de acobertar os efeitos visíveis do vazamento, ter jogado um produto químico na água que fez com que todo o óleo se acumulasse no fundo da baía. "Eu levei uns cientistas da Petrobras de barco e vi quando eles jogaram o pó nas águas do rio Suruí", contou Oliveira. "O óleo sumiu imediatamente da superfície, mas, passei a mão no fundo e vi que estava tudo lá." O produto usado é canadense e chama-se Industrial Absorbent (absorvente industrial).
Produto químico - De acordo com a embalagem, o pó não é tóxico e seu uso é indicado em casos de vazamentos de óleo. A Petrobras informou hoje, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que não usou nenhum tipo de produto químico para afundar o óleo, mas apenas para aglutinar o combustível e retirá-lo com mais facilidade. Segundo a empresa, as placas de óleo encontradas perto das praias são formadas pelo combustível que ficou na areia e, devido ao movimento das marés, foi levado de volta para o fundo. A estatal informou ainda que uma equipe de 80 pessoas está trabalhando na limpeza dessas áreas.
Ajuda de custo - Os pescadores reclamam também da suspensão do pagamento da ajuda de custo aos profissionais atingidos pelo vazamento do óleo. A empresa pagou aos pescadores R$ 500 pelo mês de fevereiro e R$ 250 referentes aos quinze primeiros dias do mês de março. Como a pesca foi liberada, os pagamentos foram suspensos.
O pescador Gomes afirmou que não recebe mais a ajuda e está há 45 dias sem pescar - sua rede está cheia de óleo e a Petrobras não o ressarciu de seus prejuízos materiais. "Tenho três filhos para sustentar; já vendi uma televisão e um aparelho de som."


