KAMPALA, Uganda, 21 (AE-AP) - Depois que centenas de membros de uma seita religiosa cometeram suicídio em massa no sudoeste de Uganda, psiquiatras e teólogos culparam a pobreza, a epidemia de aids e a Igreja católica do país pela proliferação de cultos apocalípticos.
Na sexta-feira, centenas de membros do culto atearam fogo às próprias vestes dentro de uma capela na próspera fazenda da seita nas proximidades de Kanungu, 353 quilômetros a sudoeste de Kampala. Autoridades trabalham com a hipótese de um suicídio em massa, um dos maiores da história recente.
Gerard Banura, um teólogo da Universidade de Makerere, disse que a cúpula da igreja marginalizou os líderes do Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus - todos ex-católicos - quando eles discordaram com certas partes da missa.
"De alguma forma a Igreja (católica) oficial cometeu um erro ao isolar essas pessoas", afirmou Banura.
Na segunda-feira, um trator começou a empurrar os restos carbonizados de centenas de membros da seita religiosa para uma vala cavada ao lado da capela. O enterro foi concluído nesta terça-feira, sendo que o túmulo não tinha nenhum enfeite, nem cruz, nem flores.
O porta-voz da polícia local, Assuman Mugenyi, disse hoje que mais cinco investigadores estavam em Kanungu para "concluir o inquérito". Dez detetives já estavam lá, segundo Mugenyi.
Ele afirmou que a polícia ainda estava procurando membros da seita sobreviventes.
"Falamos com algumas pessoas que abandonaram a seita um ou dois anos atrás, e estamos usando eles para conseguir informações importantes, mas os estamos tratando como testemunhas, não como suspeitos".
O ministro do Interior Edward Rugumayo disse na segunda-feira que a polícia havia contado 330 mortos, incluindo 78 crianças. Notícias anteriores apresentavam números distintos, que iam de 235 a 600 mortos. Rugumayo afirmou que o grupo mantinnha arquivos meticulosos num pequeno escritório no complexo e havia anotado o nome de cerca de 1.000 membros.
Mas policiais disseram que era impossível separar muitos dos corpos, que carbonizaram juntos devido ao intenso calor do incêndio.
A tragédia ocorre num momento no qual Uganda festeja mais de uma década de paz e crescente prosperidade - pelo menos nas áreas urbanas - depois de anos de anarquia e guerra civil.
A doutora Florence Baingana, chefe da divisão de saúde mental do Ministério da Saúde, acredita que as pessoas que viveram na sombra do regime ditatorial de Idi Amin são naturalmente vulneráveis.
"Nossa história nos fez mais vulneráveis porque a vida era muito dura", disse ela. "As pessoas têm esses vazios em suas vidas - vazios espirituais - e eles procuram diferentes formas de preenchê- los, como unirem-se a cultos".
Vários cultos religiosos que cresceram no regime brutal de Amin, de 1971 a 1979, transformaram-se mais tarde em movimentos guerrilheiros, um deles chefiado por uma mulher chamada Alice Auma Lakwena.
O culto de Kanungu, que tinha 10 anos, também era liderado por uma mulher, uma ex-prostituta de 40 anos chamada Clendonia Mwerinde. Ela dizia que a Virgem Maria havia aparecido para ela numa visão e falou para ela e para colegas íntimos para não seguirem as cerimônias religiosas da Igreja católica.
A polícia havia anunciado que Mwerinde e outros líderes do culto tinham morrido no incêndio na capela. Mas Rugumayo disse que apenas dois corpos foram identificados - um do administrador da fazenda e o outro descrito como de um padre.
Banura afirmou que três dos líderes homens foram suspensos da Igreja no início dos anos 90 porque eles se opunham a receber a comunhão em pé, preferindo ficar ajoelhados.
O reverendo Joseph Nkeero, um porta-voz da Igreja, disse hoje que os líderes do culto eram ex-padres que foram excomungados.
"Essas pessoas cometeram erros e quebraram a disciplina da Igreja", afirmou Nkeero. "Uma vez que eles ficaram fora, eles se alienaram".
O catolicismo romano, estabelecido em Uganda no final do século 19, foi a primeira variante do cristianismo no país.
O reverendo Grace Kaiso, secretário-geral do Conselho Unido Cristão de Uganda afirmou que uma mistura de grande disseminação de aids, rápida urbanização, pobreza e a crescente popularidade de igrejas cristãs não-tradicionais serviu de pano de fundo para a tragédia.
"As pessoas estão saindo das regiões rurais e estão perdendo sua rede de proteção local, que cuida delas", afirmou ele. "Aids significa que as pessoas têm menores oportunidades de apoio, com parentes e amigos morrendo. O fato de tantas pessoas terem morrido também criou a crença de que o fim do mundo está próximo. Eles vêem todas essas coisas ruins e pensam Para que investir no futuro?"

mockup