Brasília, 23 (AE) - Com base no censo agropecuário 1995/6, técnicos do governo e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) concluíram que, em média, os agricultores familiares obtiveram mais do que o dobro da produtividade dos grandes produtores. A pesquisa, divulgada hoje pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, revela que os chefes de família com ajuda basicamente dos filhos conseguiram produzir R$ 104,00 por hectare, enquanto a chamada agricultura patronal obteve apenas R$ 44,00 por hectare.
"A agricultura familiar produz mais emprego e renda por hectare do que a patronal", comentou o ministro, pouco antes de defender a necessidade de se investir mais dinheiro na agricultura familiar para que não se tenha gente do campo marginalizada na cidade. Segundo Jungmann, a vida de uma criança na periferia de uma cidade é muito pior que a de uma no campo, mesmo que pobre e no Nordeste. Neste ano, o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) pretende realizar 1,2 milhão de contratos e gastar R$ 3,46 bilhões em financiamentos.
O ministro prometeu ampliar o programa de legalização de terras e aumentar a assistência técnica aos pequenos agricultores. Levantamento - A pesquisa "Perfil Nacional da Agricultura Familiar - A agricultura que alimenta e emprega brasileiros", desenvolvida em parceria pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, isolou os dados sobre a agricultura familiar que havia no censo do IBGE.
Os técnicos do Incra e da FAO identificaram 4.139.369 propriedades de agricultores familiares, que foram responsáveis por 37,9% da produção agrícola total no período de 95 a 96, recebendo apenas R$ 937,8 milhões de crédito rural. Já as grandes propriedades, que contaram com R$ 2,7 bilhões de financiamento, responderam por 61% da produção.
A maioria das áreas dos agricultores familiares (87%) é de menos de 50 hectares, e sua renda média anual chega a R$ 2,7 mil por família. O levantamento Incra/FAO mostra também que a agricultura familiar é a principal geradora de trabalho no campo
ocupando 76,9% da mão-de-obra empregada para produzir alimentos. Ao todo eram 13,7 milhões de pessoas.
Metade dos estabelecimentos familiares usa simplesmente enxadas, diz Carlos Ganzirolli, consultor da FAO no convênio com o Incra e professor da Universidade Federal Fluminense. Segundo ele, apenas 16,7% dos agricultores familiares têm assistência técnica. No Nordeste, apenas 18,7% dos pequenos agricultores beneficiam-se com energia elétrica. Já no Sul, esse percentual sobe para 73,5%. Mas no Norte o índice é menor: 9,3%.
Apesar de toda a adversidade, os pequenos produtores conseguem alto índice de produtividade porque, segundo Ganzirolli, utilizam plenamente a terra. Ele observa que os grandes proprietários normalmente aproveitam a área de melhor qualidade de sua fazenda para plantar e usam o restante na criação de gado. "Mais terra não significa maior produtividade", concluiu Ganzirolli.

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