A disseminação da agricultura pelo Velho Mundo na pré-história também ajudou a espalhar a doença que hoje mais mata seres humanos, a malária. Essa descoberta foi feita após a análise do material genético de populações da Europa, África e Ásia.
Uma equipe internacional estimou que a doença se disseminou pela África cerca de 6.500 anos atrás, coincidindo com o momento em que o clima do continente estava mais quente e úmido.
A cada ano, em torno de 500 milhões de pessoas são infectadas pelo parasita da malária e cerca de 2 milhões de pessoas morrem da doença, principalmente na África.
A pesquisadora Sarah A. Tishkoff, da Universidade de Maryland (EUA), coordenou uma equipe de 17 cientistas, dos três continentes, que estudou uma mutação de um gene ligado à prevalência da malária. O trabalho será publicado na ‘‘Science’’ (www.sciencemag.org).
O gene G6PD é responsável pela produção de uma enzima ligada ao metabolismo da glicose. Mutações no gene afetam cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Em grau elevado, a mutação pode causar a deficiência da enzima no organismo, chegando a provocar uma forma de anemia.
Existem quase 400 variantes identificadas do gene. A sua forma normal existe em toda a parte, mas as variantes que causam deficiência da enzima estão restritas a locais que correspondem quase que exatamente a regiões onde a malária é ou foi endêmica.
Isso acontece porque, apesar dos problemas ligados à falta da enzima, a mutação confere um grau de imunidade contra a malária. Os efeitos negativos das mutações são contrabalançados pelos efeitos positivos.
‘‘Nós olhamos a quantidade de variação que se acumulou em cromossomos contendo mutações do gene G6PD. Usando um índice estimado de mutações, nós pudemos estimar quanto tempo se passou desde que as mutações se originaram em um cromossomo ancestral. Cada mutação tinha um cromossomo ancestral distinto’’, disse Tishkoff. ‘‘Esse é um exemplo notável de como a doença infecciosa pode moldar o caminho da evolução humana’’, afirma a pesquisadora.
Entender como isso acontece pode ajudar os cientistas a criarem estratégias de combate à doença, como vacinas e tratamentos, que não entrariam em conflito com a tendência natural da evolução biológica. O estudo foi feito em populações do Velho Mundo, a região onde se acredita que a malária tenha surgido.
A equipe mostrou que uma mutação específica ligada à disseminação da malária na África ocorreu de 3.840 a 11.760 anos atrás, dentro do período em que a doença teve impacto nas sociedades.
O clima quente e úmido, com criação de novos lagos, assim como a introdução da agricultura no Oriente Médio e na África, que trouxe a destruição de florestas, aumentou o ambiente em que o mosquito se reproduz -como ocorre na Amazônia brasileira.
O estudo das mutações nos cromossomos de populações da orla do mar Mediterrâneo, que banha três continentes, indica que a malária começou a infectar pessoas na região há cerca de 3.300 anos.
É provável, dizem os pesquisadores, que a malária tenha sido espalhada pelo Mediterrâneo pelos antigos gregos, cujas rotas de comércio e colonização afetaram largas áreas, como as onde hoje ficam Itália, Espanha e Turquia.

mockup