Agricultores fazem protesto em frente ao Banco do Brasil
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quinta-feira, 19 de agosto de 1999
Por Cláudia Dianni 
Brasília, 20 (AE) - Os agricultores acampados na Esplanada dos Ministérios desde segunda-feira fizeram hoje uma marcha até a sede do Banco do Brasil, em protesto aos cálculos feitos pelo banco sobre os contratos. Os produtores rurais sentiram-se incentivados pela matéria publicada hoje no jornal "O Estado de S. Paulo", em que uma equipe da Fundação Getúlio Vargas estima que o Banco do Brasil cometeu erros de até 45% nos cálculos e pela admissão do ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Morais, de que houve abusos. "Até que enfim começaram a ver as coisas como elas são", disse um dos coordenadores do movimento, da Federação de Ruralistas do Mato Grosso, Homero Pereira.
A marcha dos ruralistas foi rápida e organizada. Eles partiram da Esplanada dos Ministérios até a sede do Banco do Brasil, onde permaneceram por cerca de dez minutos. Cantaram o Hino Nacional, rezaram o Pai-Nosso e acenderam velas na frente do banco, onde cerca de 40 policiais militares fizeram uma corrente para evitar que os protestantes avançassem até a portaria do banco. "Gostaríamos de selecionar dois ou três produtores para que eles contassem suas histórias à direção do banco, para que eles vissem as injustiças", disse Pereira. Segundo o sindicalista, os ruralistas vão pedir ao Banco do Brasil que seja feita uma auditagem nos contratos, pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
"Quando a gente pede a revisão das contas, eles não fornecem e ainda dizem que a dívida vai ficar mais alta", reclamou a produtora de grãos Traudi Strobel, de Palmeira da Missão, no Rio Grande do Sul, onde trabalha em uma área de 2.550 hectares. "Só consegue o recálculo quem entra na justiça", disse Traudi, que chegou na segunda-feira e pretende ficar em Brasília até o fim do protesto. Ela conta que contraiu a dívida, equivalente a 16,5 mil sacos de soja, em 1989. "Em abril de 1990, eles aumentaram meu saldo devedor em 92,8%, enquanto o preço da soja variou 43,5%", afirmou, mostrando um extrato do banco. Ela afirma que no mesmo ano agrícola em que se endividou, pagou 18,5 mil sacos de soja, mais 2,5 mil posteriormente e ainda deve 20 mil sacos. "No Plano Collor, o corte da inflação foi feito no dia 15 de março", lembrou. "Eu utilizei o dinheiro do empréstimo durante a inflação alta por 73 dias e eles me cobraram os mesmos juros por 123 dias, o que faz uma diferença enorme." Ela afirma que sua divida ultrapassa R$ 300 mil.
Vindo do outro lado do País, em uma viagem de ônibus que durou dois dias, o pequeno produtor de grãos da cidade Nizia Floresta, no Rio Grande do Norte, Domingos Xavier, de 54 anos, tem uma dívida bem menor, proporcional ao tamanho de sua terra, de 80 hectares. Ele adquiriu um empréstimo em 1987 que, segundo afirma, valia um quarto do valor de sua propriedade, avaliada em cerca de R$ 7 mil. Xavier deve ao Banco do Brasil, porém, R$ 37 mil. "Agora teria de vender o equivalente a várias propriedades para pagar a dívida", lamentou o produtor que pretende ficar em Brasíla até o fim, dormindo no ônibus em que chegou com outros companheiros. "Eu só queria que o banco respeitasse o contrato que foi feito no início, com juros de 7%", disse. "Não quero desconto de 40%, nem nada, apenas que o governo respeite meu contrato e em dois anos eu pago a dívida com o meu trabalho."


