Foz do Iguaçu, PR, 22 (AE) - Um grupo de 400 agricultores brasileiros fechou hoje, por três horas, a Ponte da Amizade, única ligação por terra entre Brasil e Paraguai, na fronteira de Foz do Iguaçu (PR). Expulsos do Paraguai há um mês, eles dizem que estão sendo vítimas de uma limpeza étnica no país vizinho, onde a maioria está radicada há mais de 20 anos. Sob pressão e ameaças de integrantes dos movimentos dos trabalhadores sem-terra do Paraguai, esses agricultores dizem que foram obrigados a abandonar suas propriedades para não serem mortos.
Com apoio do Centro Nacional de Direitos Humanos, da Pastoral do Imigrante do Brasil e Paraguai, religiosos e sindicalistas, os agricultores bloquearam a ponte entre meio-dia e 15 horas. Faixas e cartazes reivindicam o respeito à migração e o direito dos brasileiros às suas propriedades. A interdição provocou engarrafamento de cinco quilômetros de extensão nos dois lados da fronteira. Eles usaram um cordão de isolamento para impedir a passagem de pedestres e veículos. O trânsito sobre a ponte só voltou ao normal no final da tarde.
As perseguições aos agricultores brasileiros cresceram nos últimos anos à medida que ganhava corpo o movimento dos sem-terra no Paraguai. Há um mês, um grupo paraguaio expulsou pelo menos 40 famílias de suas terras na localidade de Porto Índio, na fronteira com Santa Helena, a 120 quilômetros de Foz. O acampamento improvisado no lado brasileiro foi crescendo com a chegada de outros agricultores vindos do país vizinho. Durante esse tempo eles tentaram, sem sucesso, que o consulado brasileiro em Ciudad del Este tentasse uma negociação pacífica.
Os agricultores que bloquearam a ponte querem a presença em Foz do Iguaçu do secretário de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, José Gregori. Também pedem proteção policial das famílias que tiveram suas propriedades invadidas ou estão sob ameaça de invasão, além da reintegração de posse das terras. Eles reivindicam, ainda, apoio da Embaixada brasileira no Paraguai sobre o caso e a mudança do cônsul brasileiro em Ciudad del Este, Ernesto Ferreira de Carvalho.
Já sem muita perspectiva de vida tranquila no Paraguai, os agricultores estão dispostos ao repatriamento, desde que possam vender a preço justo todos os bens e as propriedades que conseguiram no país vizinho. Enquanto isso não ocorre, eles também querem o fechamento das emissoras de rádio pirata que, segundo dizem, são os principais meios usados pelos líderes do movimento sem-terra para estimular a limpeza étnica, com a expulsão definitiva dos brasileiros. Se não forem atendidos, ameaçam com um novo fechamento da ponte.
O presidente da Pastoral do imigrante em Itapuã, Cláudio Shuh, um brasileiro de 58 anos que há 23 vive no Paraguai, explica que os conflitos entre sem-terra paraguaios e agricultores brasileiros se acentuaram nos últimos anos por causa da crise social no país e de discursos político-nacionalistas. Segundo ele, durante a última campanha eleitoral o general reformado Lino Oviedo prometia expulsar os brasileiros e passar as propriedades aos paraguaios, caso fosse eleito. Hoje, Oviedo está exilado na Argentina sob suspeita da morte do vice-presidente Luiz Maria Argaña, mas as idéias de nacionalismo que ele apregoava continuam vivas entre os paraguaios.
A Pastoral Social em Ciudad del Este calcula que hoje existem no país cerca de 50 mil trabalhadores rurais sem-terra. Em contrapartida, estimativas extra-oficiais estimam que cerca de 300 mil brasileiros vivem no Paraguai, a maioria nas regiões fronteiriças ao Estado do Paraná. Pelo menos metade deles seriam proprietários de terras, o que os tornou alvos do movimento que luta pela reforma agrária. A cidade de San Alberto, por exemplo, localizada a 90 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu, está há dois dias sitiada numa tentativa de expulsar os brasileiros. Cerca de 80% dos 23,5 mil moradores são brasileiros.

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