Paris, 12 (AE) - Certos dias são bastante carregados para Boris Yeltsin, homem que "agoniza" há dois anos. Na terça-feira, recebeu Gerhard Schroeder, o chanceler alemão, com vistas a reanimar o processo de pacificação em Kosovo, processo em perigo após o bombardeio da Embaixada da China em Belgrado. Amanhã (13), o velho Yeltsin deverá acolher o presidente francês, Jacques Chirac, numa visita de dois dias. E nesse mesmo dia a Duma (Câmara baixa do Parlamento russo) debaterá a possível destituição do presidente russo.
Como vemos, dias bastante trabalhosos. Mesmo assim, na tarde de terça-feira, para desentorpecer-se um pouco, para distrair-se ou talvez para matar o tempo, Yeltsin aproveitou um momento livre para fulminar seu atual primeiro-ministro, o excelente Yevgeny Primakov, substituindo-o por Sergei Stepashin, caso a Duma venha a referendar a decisão.
A partida de Primakov e o crescimento do poder de Stepashin não causaram surpresa aos iniciados (nós mesmos anunciamos esse remanejamento há alguns dias). A despeito do que esse acúmulo de atitudes incompreensíveis lança Moscou e o Kremlin numa dessas crises nervosas adoradas pelos russos.
A decisão de Yeltsin, num momento perigoso, é tão extravagante que nos leva a perguntar se se trata de um suicídio político, um golpe de gênio ou senão um gesto afobado de quem se afoga. E, no entanto, conviria não menosprezar esse homem: doente, incoerente, provocante, vulgar, às vezes estúpido, suas "patadas" são terríveis em toda sua extensão.
Por que despediu, como se fosse um lacaio, Primakov, o melhor primeiro-ministro russo, que conseguiu dar brilho no cenário internacional a um país enlouquecido, restituindo a credibilidade em sua economia? Primeira resposta: Primakov foi bem sucedido. Enquanto a taxa de popularidade de Yeltsin caiu em profundidades abissais, a de Primakov conseguiu fixar-se positivamente.
Para além dessa psicologia pueril talvez ainda exista outra coisa: Primakov é apoiado pelos comunistas e os agricultores (extrema- direita), o que é intolerável para Yeltsin, por serem eles seus piores inimigos. O procedimento de impeachment a ser examinado na Duma está sendo sustentado justamente pelos comunistas e agricultores.
Há quem suponha que a punhalada em Primakov visa demolir o bloco comunista-agrário que, na quinta-feira, debaterá o pedido de impeachment. Trata-se, porém, de uma interpretação superficial. Entre os cinco pontos de acusação contra Yeltsin, apenas um apresenta a possibilidade de arregimentar os votos de 300 dos 450 deputados necessários ao impeachment. Esse ponto é a eclosão da guerra na Chechênia e o modo lastimável com que foi conduzida essa guerra interna, entre 1994 e 1996, por Yeltsin e seus conselheiros.
Fixando o foco sobre o novo primeiro-ministro em potencial, Serguei Stepashin (de 47 anos), veremos que ele foi justamente o mais fervoroso partidário da guerra e um de seus teóricos.
Visto desse modo o comportamento de Yeltsin torna-se francamente enigmático. Consideremos os termos da equação: o que fragiliza Yeltsin diante da Duma (e, aliás, diante do país inteiro) é esse lastimável caso da Chechênia. Preparando-se para arrostar a cólera, da Duma, a partir de quinta-feira, Yeltsin nomeia primeiro-ministro, substituindo o popular Primakov, Stepashin, um dos grandes responsáveis pelo equívoco da Chechênia. De certa maneira o toreador Yeltsin, que mal consegue se manter de pé, diverte-se agitando o manto vermelho no momento no qual o touro comunista-agrário está diante dele, soltando fogo pelas ventas. Como explicá-lo? De minha parte peço perdão, renunciando às interpretações.
Mas seja como for, o navio vai balançar. O país está petrificado e ulcerado pela exoneração de Primakov. Os comunistas expressam-se aos berros. Seu chefe, Gennady Ziuganov, anuncia que "manifestações serão organizadas em todo país". Outro deputado comunista, Gennady Seleznev, afirma que a demissão de Primakov "foi o maior erro que o presidente já cometeu".
De outra parte é certo que a maioria nacional-comunista na Duma rejeitará a investidura de Stepashin. Se esse "voto-sanção" for repetido três vezes a Duma será automaticamente dissolvida. Uma triste perspectiva para Yeltsin, que chegou ao cúmulo da impopularidade. Porém, ainda assim o presidente ficará no poder, podendo governar por decreto.

mockup