Agonia por informações no Complexo Imigrantes
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 26 (AE) - No dia seguinte, a agonia ficou do lado de fora do Complexo Imigrantes da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). Desde a madrugada, dezenas de mães e pais de internos aglomeravam-se do lado de fora das grades. Diante de dois guichês, passaram horas em uma busca tão desesperada quanto infrutífera: queriam informações.
Afixadas em paredes, muitas vezes escritas à mão, as listas cometiam pequenas atrocidades. Em uma delas, o nome de um interno aparecia como transferido para o Carandiru. Noutra, do outro lado da rua, informava que estava lá mesmo, no Complexo Imigrantes. Para a mãe, o erro custou passagens de ônibus, preocupação e lágrimas. "Isso é coisa que se faça, eu vou pra lá, pra cá, e não sei se meu menino tá vivo", gritava, no meio da multidão.
Para quem via o nome do filho na lista, alívio. Mas muita gente não encontrava em lugar algum. Gritavam na portaria, pediam ajuda para outras mães: nada. Como há dois menores mortos ainda sem identificação, o resultado era uma tensão que poderia explodir a qualquer momento - e acabou ocorrendo no fim da tarde
com a tentativa de linchamento de um monitor. Visitas - Qualquer movimento no interior do pátio dava motivo para correrias em direção às grades, gritos. Uma menina carregava um binóculo. No fim da manhã, a direção da unidade concedeu um pequeno paliativo para poucos privilegiados. As visitas foram permitidas para grupos de cinco mães, por cinco minutos.
Foi a notícia se espalhar e cinco filas de até 30 pessoas formaram-se rapidamente. Numa delas estavam os amigos Sueli de Souza, de 32 anos, e Francisco Alves dos Santos, 40. Enfrentaram cinco horas desde sua cidade, Itápolis, no noroeste do Estado, para saber notícias dos respectivos filhos. Detalhe: sem dinheiro para viajar de ônibus, pegaram carona na ambulância da prefeitura local, que trazia um paciente para a capital.
"A gente não aguentou ficar vendo aquele horror pela televisão", explicou Sueli. "Eu não quero muito, só olhar para o rosto dele e ver que está tudo bem". Doente, andando com dificuldade, mas mantendo-se todo tempo em pé, Santos veio ver o filho no lugar da mulher, que não pôde faltar ao trabalho.
Depois de preencher uma ficha e passar duas horas na fila, os dois já estavam dentro do complexo, quando as visitas foram interrompidas "para o almoço dos internos". Além da aflição pela falta de notícias, os dois só pensavam na ambulância que iria buscá-los. "Se até lá a gente não tiver entrado, paciência, vamos ter de ir embora". Até o começo da noite, ambos continuavam do lado de fora.
As mães que entravam saíam aliviadas. "Ele está bem, mas só deu tempo de eu pedir que ele não se metesse em rebelião", contou Hilda Alves da Silva, de 45 anos. Do filho, ela ouviu o pior relato. "Ele viu atear fogo no menino". Num misto de esperança, desespero e ilusão, muitas mães tinham solução pronta para o problema da Febem. O filho de Eliane da Silva está recluso porque assaltou uma casa. Para Eliane, "a culpa é do juiz". Ela explica: "Sou católica e ia conseguir tirá-lo desse caminho, mas o juiz resolveu mandar o menino para esse inferno".


