Agentes vão traduzir parâmetros curriculares
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sexta-feira, 01 de outubro de 1999
Por Leonardo Trevisan 
Brasília, 02 (AE) - A prática dos professores em sala de aula deve sofrer significativas mudanças no Brasil. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, prepara um programa de contratações de "agentes multiplicadores" incumbidos de "traduzir" os novos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o cotidiano dos professores.
Não será obrigatório que esse novo profissional da educação pertença aos quadros de cada escola. Ele pode ser tanto um professor aposentado, interessado em ajudar, um professor universitário ou até um pai de aluno disposto a incentivar a melhoria do ensino.
Em entrevista Paulo Renato reconheceu que a oferta de vagas na escola brasileira está "praticamente resolvida". O problema, agora, é descobrir o que fazer com as crianças dentro da escola. O ministro admite que há "dois aspectos importantes no futuro imediato" da educação brasileira: a expansão do ensino médio e a formação dos professores. Nos dois aspectos, garante, "é preciso recursos e atenção à questão da qualidade do ensino".
Paulo Renato disse que o professor "não pode mais confiar no poder de reprovar para ter autoridade", considerando "injustas e equivocadas" as críticas à política de incentivo à aprovação dos alunos. Ele disse também que a velocidade na expansão quantatitiva do ensino médio, "vai provocar mudanças como nunca se viram no ensino universitário".
O ministro reconheceu que "no momento não temos nenhum plano" para criar recursos novos para a reforma do ensino médio. Esse nível de ensino, segundo Paulo Renato, ficou "em uma zona de indefinição financeira".
A Constituição obriga Estados e municípios a destinar 25% à educação. Desse total, 15% estão obrigatoriamente destinados ao ensino fundamental e o restante "acaba investido em ensino universitário" lamenta o ministro. O crescimento do ensino médio - a projeção do MEC é que em 2002 o Brasil tenha 10 milhões de estudantes nesse nível de ensino, hoje tem 7,2 milhões - "forçará os Estados a rever prioridades", disse Paulo Renato.Um empréstimo concedido pelo Banco Interamericano do Desenvolvimento (Bird) ao governo federal está financiando a reforma do ensino médio. Paulo Renato disse que em nove Estados a reforma ainda não foi efetivada, estimando que "até o começo do ano todos os Estados completam a implantação".
O ministro não acredita em descompasso, "porque nós liberalizamos bastante a expansão do ensino universitário", e não há, segundo ele, escassez de vagas nesse nível, embora reconheça: "Hoje, a conclusão do ensino médio supera em 2,5 vezes o número de vagas oferecidas nos vestibulares." Paulo Renato acredita que a universidade terá de se adaptar à nova demanda "flexibilizando o currículo e a questão das vagas ociosas".
Mudanças - As mudanças na formação dos professores de ensino fundamental, por meio da criação dos Institutos de Educação Superior, conforme parecer do Conselho Nacional de Educação , "não será uma camisa-de-força", segundo o ministro. Para ele os cursos de pedagogia podem "manter a forma atual" ou "especializar-se como curso normal superior". A decisão pertence a cada universidade, garantiu o ministro.
Os PCNs devem ser "o livro de cabeceira" dos professores, disse Paulo Renato, reconhecendo que há um "hiato de linguagem" entre o professor "lá do interior do Ceará e o especialista". Ele contou que o MEC está iniciando o programa Parâmetros em Ação para formar "em parceria" com secretarias de educação estaduais ou municipais "agentes de divulgação dos parâmetros".
O ministro insistiu que a "cultura da reprovação" marcada pela "cômoda atitude do professor que dá matéria, dá a prova e quem passou, passou" precisa mudar. A autoridade do professor, para o ministro da Educação não pode estar apenas na questão punitiva de reprovar o aluno. Os agentes multiplicadores do PCN terão também a incumbência, segundo Paulo Renato, de debater com os professores o desenvolvimento da "cultura da aprendizagem". Segundo ele, "hoje, a escola é para todos".


