Washington, 14 (AE) - Num incidente indicador das tensões que deverão marcar o lançamento da nova rodada de negociações sobre as leis do comércio internacional, durante a reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, no início de dezembro, em Seattle, representantes de países em desenvolvimento acusaram a delegação dos Estados Unidos na OMC de ter desaparecido com duas páginas contendo suas propostas ao elaborar a primeira proposta da agenda da reunião, que ficou pronta na semana passada.
"Foi totalmente injusto e, fracamente, ficamos chocados", disse o representante da Índia na OMC, Srinivasan Narayanan. O representante indiano mostrou-se particularmente irado com o sumiço das sugestões dos países em desenvolvimento porque, de acordo com o discurso oficial da administração Clinton, um dos objetivos que Washington perseguirá na chamada Rodada do Milênio é o dar uma face humana à globalização, procurando compatibilizar a liberalização comercial às necessidades das nações mais pobres.
Segundo o New York Times, que revelou hoje o incidente, funcionários americanos evitaram comentar a acusação. Limitaram-se a dizer que a agenda da reunião de Seattle, cuja montagem é responsabilidade do país anfitrião, continua a ser negociada. Depois das reclamações, as propostas das nações em desenvolvimento reapareceram no rascunho da agenda de Seattle. Elas incluem, por exemplo, a introdução de um período de espera de um ano entre investigações de casos anti-dumping, que os EUA vem usando com intensidade crescente para proteger os setores menos competitivos de sua economia, como a siderurgia. Há duas semanas, o secretário do Comércio dos EUA, William Daley, deixou claro que Washington não aceitará restrições a ações anti-dumping , que não existem nas atuais leis do comércio internacional. "Apenas 0,5% de nossas importações estão sujeitas a tarifas anti-dumping ou anti-subsídio e qualquer ação nessa área seria calculada para atingir os EUA e não melhorar as leis de comércio", disse Daley.
Entre as propostas das nações mais pobres estão, também, a restauração de seu direito de proteger algumas indústrias com subsídios governamentais; mais prazo para a aplicação das regras sobre propriedade intelectual já adotadas; o adiamento do aperto das regras sobre comércio relacionado com investimentos e a adoção de normas para forçar a indústria farmacêutica dos países ricos a vender produtos essenciais a preços acessíveis para a população das nações em desenvovimento.

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