áfrica: o continente esquecido. Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 01 (AE) - A áfrica não é apenas o "doente" do mundo. É o "desastre" (aliás, infelizmente, um dos desastres). Há 30 anos, um verdadeiro amigo da áfrica, o ecologista René Dumont, lançou um livro duro: LAfrique Noire est Mal Partie (A áfrica Negra Vai Mal). E hoje? Será necessário reiterar este veredicto, atenuá-lo ou então agravá-lo?
A áfrica não se contenta mais em ser infeliz. Ela é cada vez menos "visível". Diríamos que "desertou" do mundo ou o mundo a esqueceu. Gostamos dela, mas viramos o rosto. Não compreendemos mais nada do que se passa nesse continente. Renunciamos a acompanhar sua patética maldição. Diríamos que o mundo desenvolvido "está resignado com a áfrica" como a áfrica "está resignada consigo mesma".
Essa análise refere-se apenas à "áfrica Negra". Com certeza
a áfrica do Norte - do Egito ao Marrocos - também conhece dramas, mas menos profundos. Em alguns países - Marrocos, Argélia - existe progresso.
Dois índices deste "desamor": a aids causa espanto, mas a mobilização geral e as pesquisas científicas estabilizaram a epidemia, fazendo-a às vezes recuar. Em contrapartida, na áfrica Negra, a aids passeia livremente, quebra tudo, enche os cemitérios, transforma os hospitais em depósito de moribundos, porque a áfrica não tem dinheiro, nem medicamentos, nem médicos, nem cultura médica.
Então, de vez em quando, aparece nos jornais do Ocidente uma notícia curta para mostrar que a aids está aniquilando a áfrica. Lemos a informação, ficamos tristes. Mas a tristeza passa. Afinal de contas, é a áfrica!
Segundo exemplo: em Uganda, uma seita apocalíptica realizou um homicídio coletivo. Foram encontrados 500 mortos carbonizados numa igreja. Logo depois, todos os dias, outra carnificina. Cem mulheres e crianças aqui, 200 homens ali. Hoje, mais de 900 vítimas. Enfim, não sabemos mais quantas são. Uma tragédia que supera a do reverendo Jim Jones, na Guiana, em 1978.
Há dois anos, na Suíça, na França e no Canadá, outra seita apocalíptica (O Templo Solar) realizou suicídios coletivos (talvez 150 pessoas). Uma emoção universal. E com razão. Ainda se fala sobre isso.
Tentamos compreender o "incompreensível". Mas a respeito da carnificina de Uganda, quase nada. Não tentamos compreender. Afinal, é a áfrica, e, de qualquer maneira, a áfrica é incompreensível.
E então, será preciso desesperar? Não absolutamente, porque a áfrica se mexe. Ela se mexe em dois campos. Em primeiro lugar, a economia, chave de todos os outros progressos possíveis. E, depois, a marcha rumo à democracia.
No tocante à economia, os últimos anos deram a esperança de que o "subdesenvolvimento" ou a "regressão" não são uma fatalidade. Protegida pelo primitivismo de sua economia, a áfrica não sofreu grandes choques, como os que abalaram a Rússia ou o Japão. Melhor ainda: ela empreendeu uma "marcha à frente". Durante os últimos quatro anos, as taxas de crescimento do continente negro foram de 4% a 5% ao ano.
Trata-se de um resultado soberbo, que contrasta com o fatal declínio dos decênios precedentes. Mas, é preciso observar alguns detalhes deste progresso. Varia enormemente de uma zona a outra. Em Uganda, no Leste, o ritmo de crescimento é de 7% há vários anos. Mas outros países declinam a um ritmo acelerado.
Moçambique está à deriva. Mas é possível compreender: anos de uma guerra civil bárbara, depois grandes catástrofes (ciclones, inundações). Mas vejam Madagáscar, a grande ilha "paradisíaca" do Oceano Índico: de cada 1.000 crianças, 300 morrem antes dos 5 anos. No campo da educação, as autoridades fazem um grande esforço. Resultado: 140 crianças, de 5 a 11 anos, amontoam-se numa sala de aula de 30 metros quadrados.
Quanto aos avanços da democracia, o mesmo quadro cheio de contrastes. Uma liderança brilhante: há um mês, o Senegal deu uma lição de civismo quando, numa eleição impecável, o presidente socialista, Abdu Diuf, derrotado por seu desafiante liberal, Abdulaye Wade, cedeu seu lugar com elegância.
Não é o único caso: o estado de direito instalou-se em Benin, Mali, Cabo Verde, Botsuana. A grande Nigéria tem um presidente militar, Olusegun Obasanjo, mas eleito de maneira leal. Infelizmente, tensões religiosas violentas vieram ameaçar recentemente este frágil episódio legalista.
Estes progressos são contrabalançados por graves retrocessos: desde 1995 regimes civis foram derrubados pelo Exército em Níger
Burundi, Ilhas Comores, Serra Leoa e Gâmbia. Os regimes da República Centro-Africana e da Guiné-Conacri estão ameaçados. Um Estado poderoso, a Costa do Marfim (no oeste), durante muito tempo um modelo de democracia do tempo do presidente Houphouet-Boigny, mas disputado entre militares há alguns anos, sofreu em dezembro um golpe de Estado que instalou em Abidjã um novo general, Robert Guei.
Enfim, no próprio coração do continente negro, há Estados frequentemente ricos e populosos, que engrossam essa ladainha dos "golpes de Estado" com a ladainha da "barbárie". E aí deparamos o mesmo fenômeno que o referente à aids ou aos homicídios de Uganda: o desinteresse, a ignorância, a invisibilidade.
Se o que acontece neste momento no Congo-Kinshasa (antigo Zaire), depois da substituição do sanguinário Mobutu pelo sanguinário Kabila, ocorresse na Europa, haveria uma gritaria: Ituri (a leste do Congo-Kinshasa e bem perto de Uganda) é o reino do homicídio. Não existe mais Estado. Milhares de crianças morrem de fome, de doença, de mordidas de serpentes. Duas tribos
os lendus e os hemas, estripam-se.
Não há mais governo. Há apenas quadrilhas: retrocesso, retorno à barbárie primitiva. E sobre a imensa floresta, o silêncio, a morte. (E que dizer do Sudão, onde há anos dominam as guerras, os extermínios, por motivos religiosos - muçulmanos contra cristãos -, que a consciência internacional, sem dúvida com medo de chorar, há muito tempo optou por ignorar completamente, com exceção dos Estados Unidos e logo diremos por quê).
Mas, recentemente, aconteceu uma mudança: a França que, desde o general De Gaulle era intervencionista e neocolonialista nas zonas francófonas, compreendeu enfim a perversidade de sua ação.
A França não se desinteressa pela áfrica. Ao contrário. Mas cessou de transformar esta região, sob capa de ajuda, no campo de suas ambições econômicas (embora empresas privadas francesas continuem ali bem presentes).
Os Estados Unidos deram a entender que pretendiam tomar o lugar da França nos sistemas econômicos e políticos da áfrica Negra. Até agora não temos provas disso. Um único país interessa aos norte-americanos, dissemos, o Sudão, porque ali pesa uma ameaça islâmica muito perigosa e Washington teme um contágio islâmico em toda a áfrica Negra. É por isso que os Estados Unidos fornecem milhões de dólares a todos os países que cercam o Sudão, para estabelecer uma espécie de "cordão sanitário" na Etiópia, Uganda e Eritréia.
Com toda a certeza, é bom que as grandes potências cessem de "instrumentalizar" a áfrica Negra sob pretexto de democracia. Mas é preciso não concluir daí que a áfrica Negra deve ser abandonada à sua própria sorte, relegada ao seu abandono, às suas agonias. A comunidade ocidental tem o dever de criar novos sistemas de intercâmbio, de cooperação para proteger do naufrágio o imenso, infeliz e magnífico continente.





