Johannesburgo, 02 (AE-AP) - A era de Nelson Mandela acabou nesta quarta-feira (02) com uma eleição ordenada e alegre que certamente levará o Congresso Nacional Africano (CNA) a uma nova vitória estrondosa cinco anos depois de os aul-africanos ficarem livres do cruel regime de segregação racial conhecido como apartheid.
Sul-africanos de todas as raças compareceram em massa às urnas
aguardando pacientemente em longas filas para escolher um novo governo.
Eles estavam unidos para testar a jovem democracia sul-africana em um continente onde duas eleições livres consecutivas são raras. E a maioria negra teve sua primeira chance de votar depois das eleições de 1994, que encerrou o governo da minoria branca e levou Mandela, que passou 27 anos na prisão, à presidência.
A votação para a escolha de 400 membros da Assembléia Nacional e 427 representantes para nove Assembléias Provinciais transcorreu pacificamente - em grande contraste com a primeira eleição democrática no país, em 1994, marcada pela violência e pelo caos.
A votação estendeu-se até as primeiras horas de quinta-feira (pelo horário local), já que havia longas filas às 21h locais, horário de fechamento das urnas. Funcionários pediram aos eleitores que ficassem até que pudessem votar.
Com 21% dos votos apurados, O CNA tinha 50%; o Novo Partido Nacional - sucessor da agremiação governista durante o apartheid -, 17%; o Partido Democrático, 16%; e o Partido da Liberdade Inkatha, 8%. Pequenos partidos dividiam o restante. É esperado que a vantagem do CNA cresça à medida que cheguem os resultados das áreas urbanas.
O comparecimento às urnas foi de cerca de 85%, segundo o chefe da Comissão Eleitoral, Mandla Mchunu.
O porta-voz da polícia, Harry Shabangu, informou que três mulheres foram mortas pouco antes da abertura das urnas - às 7 horas - na Província de KwaZulu-Natal, conhecida por seu alto índice de violência. No entanto, a polícia acredita que as três mulheres foram assassinadas durante um assalto.
O porta-voz também informou que um pacote suspeito de conter uma bomba foi encontrado no lixo perto do centro de votação no distrito de Lyndenburg, reduto dos políticos direitistas brancos
a nordeste de Johannesburgo. Mas o pacote não tinha nada dentro.
Temendo incidentes violentos, mais de 100.000 soldados e policiais foram mobilizados para garantir a ordem no país, principalmente em KwaZulu-Natal, reduto do Partido da Liberdade Inkatha, do líder zulu Mangosuthu Buthelezi.
Um observador internacional exaltou a "atmosfera tolerante" das eleições. Sir David Steele, chefe do grupo de observadores da Commonwealth, disse que a performance demonstra "a emergência de uma sociedade democrática madura" e que a consolidação da transformação foi iniciada há cinco anos.
O alto índice de comparecimento dos mais de 18 milhões de eleitores lembra as primeiras eleições democráticas, em 1994. A atmosfera, no entanto, é menos festiva que na época.
Segundo pesquisas de opinião, é quase certa a vitória do Congresso Nacional Africano (CNA), cujo líder, Thabo Mbeki, deverá ser designado no dia 14 pelo novo Parlamento como sucessor de Mandela, que deixará a presidência e a política no dia 16.
Mandela, que junto de sua mulher, Graça Machel, foi um dos primeiros que se apresentaram às urnas em Johannesburgo, disse estar orgulhoso por ter votado. Ele comentou que agora poderá cumprir seu velho sonho de desaparecer da política - o que ele já quis fazer em 1994, antes das primeiras eleições democráticas
mas foi impedido pelos membros do CNA. "Agora posso me retirar tranquilo."
Pouco antes da abertura dos centros eleitorais em todo o país, já se haviam formado longas filas. O novo sistema informatizado, criado para a ocasião, não funcionou tão bem como se esperava. A Comissão Eleitoral Independente informou que o atraso na votação não prejudicaria nenhum eleitor e todos os que estavam nas filas até o horário de fechamento das urnas - 21 horas - puderam depositar seus votos.
A ex-mulher de Mandela, Winnie Madikizela, afirmou que com as eleições de hoje "acabou a festa" para os que usaram a transição pacífica do país em benefício próprio. Winnie disse que o vice-presidente Mbeki, o provável vencedor das eleições, "é um homem que não admite brincadeira e não permitirá que o processo de transformação na áfrica do Sul seja desvirtuado". Ela esqueceu seus documentos quando foi votar em Soweto, um gueto negro em Johannesburgo, e teve de esperar um assessor ir buscá-los.
Mbeki, exultante, votou em Pretória e manifestou-se satisfeito com a normalidade das eleições. Frederick de Klerk, o último presidente da época do apartheid e coprotagonista da transição para a democracia, que dividiu com Mandela o Prêmio Nobel da Paz
voltou da Grã-Bretanha para votar, na Cidade do Cabo. "Estou otimista sobre o futuro da áfrica do Sul, apesar das muitas mudanças que ainda teremos de enfrentar", disse De Klerk após depositar seu voto.

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