Paris, 22 (AE) - Raras vezes a áfrica negra nos alegra ou nos encanta. Em toda a parte do continente, é o caos: inundações, seca, fome, golpes, genocídios. Mas, de repente, a surpresa: um dos maiores países da áfrica Negra, o Senegal, ganha um novo presidente e dentro de um processo suave, sem um tiro de fuzil, sem revoltas de quarteis, sem o menor "caudilho" - simplesmente depois de uma eleição irrepreensível.
Mais espantoso ainda: o candidato derrotado, o presidente socialista Abdou Diouf, reconheceu sua derrota com elegância. Apresentou seu vencedor, o liberal Abdoulaye Wade, e fez votos de êxito em sua missão "a serviço de todo o povo senegalês". Poderíamos acreditar estar em Londres, ou Paris ou Washington!
Este brilhante comportamento democrático deve ser atribuído em parte ao candidato derrotado, Abdou Diouf, que quis uma eleição impecável. E, apesar disso, Diouf tinha em suas mãos o poderoso fiel da balança: seu Partido Socialista reinava soberano no Senegal desde a independência, há 40 anos, primeiramente com o "pai da nação", o grande poeta Léopold Senghor, depois, com seu sucessor, Abdou Diouf.
E esta longevidade do socialismo é o que explica a queda de Diouf. Seu rival (hoje seu sucessor) compreendeu isso tão bem que adotou este slogan fulgurante: "Sopi" , que quer dizer "mudança" na língua wolof .
Cumpre dizer que este novo chefe senegalês tem uma personalidade marcante. Enquanto Diouf é mudo e glacial, Abdoulaye Wade é combativo, divertido e sente-se à vontade com todos. É um homem "teatral": durante sua campanha eleitoral, ia às cidades massacradas pela seca e perguntava: "Será que "Monsieur Forage" (o senhor Perfuração de poços) e a "Madame Moulin" (a Senhora Moinho) passaram por aqui?". Era o mesmo que dizer: "Será que os socialistas, que fazem eternas promessas de fornecer água e moinhos ao povo sem jamais cumpri-las, passaram por aqui?" Risadas, Sucesso.
Seu inimigos faziam objeção à sua idade: este homem combativo, que passou muitos anos na prisão, tem 73 anos. Mas ele não se perturba com isso. Na áfrica, os "velhos", longe de serem desvalorizados, como na Europa , são os "sábios", os "chefes". E Wade acrescenta: "Meu avô morreu com 100 anos, palavra de honra! E vocês terão de me aguentar mais 27 anos..." Novo sucesso!
A eleição tem ainda outro sentido: o novo presidente Wade é "liberal", ou seja uma espécie pouco difundida na áfrica Negra. Neste sentido, ele está muito ligado aos "liberais" europeus, como, por exemplo, ao francês Alain Madelin.
E porque Wade é liberal? Ele mesmo o explica: quando o Senegal acabou com o "partido único" (sob o governo de Senghor) e permitiu a formação de quatro partidos (socialista, marxista, conservador e liberal), ele ingressou neste último.
Na época, o liberalismo não ia de "vento em popa". Mas, bem mais tarde apareceu na Inglaterra uma tal Margaret Thatcher, nos Estados Unidos um Ronald Reagan e, depois, no mundo todo, surgiram bandos de liberais.
Além disso, todo o sistema econômico-político do Planeta se converteu mais ou menos ao "liberalismo". Wade foi levado por esta formidável vaga liberal. Mas isso não o impediu de aliar-se com partidos de esquerda para esta campanha presidencial. E agora ele está aí, sobre o pódio, como o vencedor, no Senegal.
Esta é a história da soberba mudança de governo realizada da maneira mais democrática. Só nos resta esperar que o exemplo do Senegal possa "contaminar" alguns de seus vizinhos. Entretanto, ainda será preciso que Wade tenha sucesso. Mas esta é outra história porque a economia senegalesa está extenuada. As grandes nações deveriam refletir sobre isso.

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