Afegãos abrigam-se nas ruínas da embaixada russa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000
Por Kathy Gannon 
Cabul (AE-AP) - A pequena mão trêmula da menina de cinco anos aparece debaixo com um xale azul rasgado para pegar um enegrecido pedaço de cenoura de um velho homem retorcido que vende vegetais.
Eles são refugiados afegãos em sua velha capital, levados pela luta a viver na pobreza na arruinada embaixada que já foi a residência de diplomatas soviéticos.
Eles são crianças, homens idosos e mulheres, 15 mil almas de acordo com a contagem a ONU.
Pedaços de plástico cobrem buracos abertos por mísseis nos prédios de quatro andares, marcas das lutas de facções que destruíram 70% de Cabul em meados dos anos 90, quando facções islâmicas que retiraram os soviéticos do Afeganistão estavam no controle. Um após o outro eles foram expulsos pelo exército religioso do Taliban em 1996.
Mas as lutas continuam.
No último verão, dezenas de milhares de afegãos foram retirados de suas casas nas planícies de Shomali, norte de Cabul
por batalhas ferozes entre o Taliban, que governa cerca de 90% do país e a oposição, que controla os outros 10%.
Alguns encontraram refúgio em áreas administradas pela oposição no vale do Panjshir. Em Cabul, os refugiados foram conduzidos ao prédio da ex-embaixada soviética. Lá, os edifícios foram destruídos por mísseis, marcado por buracos de balas e cobertos por fuligem escura.
A ONU e outras organizações de ajuda humanitária auxiliaram os refugiados, transportando tijolos e consertando alguns buracos.
Sacadas foram levantadas para proteger crianças distraídas, disse Qari Mohammed Daoud, o líder do Taliban responsável pelo local.
O Taliban, cercado pela luta e poucos recursos, diariamente envia cargas de pão ao local.
Agências de ajuda, dentre elas o Programa Mundial de Comida, também envia alimentos. Um grupo manda madeira, a única fonte de aquecimento em temperaturas abaixo de zero. Um outro grupo doou uma ambulância e outro ainda construiu latrinas. O lixo é levado por outro grupo de ajuda.
"É como uma pequena cidade", diz Stephanie Bunker, porta-voz da ONU no Paquistão.
No prédio de quatro andares que abrigava escritórios e residências, Daoud senta-se no chão: sua única mobília é uma cama de metal que range e uma fina cobertura.
Ele bebe chá verde doce num copo lascado e diz: "Nós temos tentado cuidar deles".
Mantendo as rígidas leis do Taliban, dois prédios de apartamentos da ex-embaixada foram reservados para mulheres, viúvas ou aquelas cujos maridos tenham escapado para o norte. Ela devem permanecer dentro do prédio e as crianças pequenas vivem com elas.
Apenas homens idosos e jovens meninos são permitidos nos prédios femininos, diz Daoud. Até mesmo uma repórter mulher foi barrada.
A ONU diz que o número de refugiados na ex-embaixada é de cerca de 15 mil, mas não há informações disponíveis sobre o número de homens, mulheres e crianças.
De sua sacada, Daoud aponta para o local onde vivem as mulheres de diz: "Nós somos sua proteção. Não permitimos que ninguém as incomode".
A vida no local é difícil.
Sentado no chão frio, Abdul Hazim vende uma coleta de vegetais velhos, descartadas pelas feiras da cidade. Ele faz um arco com seu corpo sobre seus vegetais, ocasionalmente dando uma olhada a um transeunte.
Uma menininha, escondida embaixo de seu xale de lã, observa os vegetais. Ele pega um pequeno pedaço de cenoura, escurecido pelo frio, mas ainda com cor por dentro. A pequena mão move-se, trêmula, e pega o vegetal.
"Eu tinha uma casa em Qaribagh. Agora, eu não tenho nada", diz Hazim, lembrando-se do tempo anterior á guerra.


