Cabul, 04 (AE-NEWSWEEK) - Zuber tem um olhar firme demais. Somado à espessa barba negra, cabeça raspada e shalwar kamiz (roupa semelhante a pijama que os homens afegãos usam), o efeito é desconcertante. Ele parece um desses afegãos que viram guerra em demasia. Mas os fantasmas de Zuber têm outra origem. Até um mês atrás, o afegão de 30 anos trabalhava num laboratório de processamento de ópio na Província de Nangarhar que produzia 100 quilos diários de morfina - base para fabricação de heroína. Ele diz que o ar era denso por causa do vapor que saía dos tonéis de goma de ópio fervente.
"Goste ou não, a gente fica respirando aquilo", diz Zuber, que recentemente foi internado numa clínica de reabilitação em Peshawar, Paquistão. "Quando a gente chega em casa, depois que o efeito do ópio passa, as pernas e braços começam a doer, e a gente começa a tomar ou fumar ópio para aliviar a dor." A clínica que Zuber agora chama de lar tem 20 leitos e uma lista de espera com 3.000 nomes. Alguns viciados têm cicatrizes na cabeça - haviam cortado o couro cabeludo para friccionar heroína nos ferimentos. Achavam que era o caminho mais curto para a droga chegar ao cérebro.
O Afeganistão, destroçado por 20 anos de guerra e governado por radicais islâmicos e milícias rivais, tem agora um bom motivo para cantar vitória. Com a volumosa safra de papoulas deste ano, o país se tornou o indiscutível líder mundial na produção de ópio. A Organização das Nações Unidas calcula que em 1999 o Afeganistão foi responsável por 75% da produção mundial, ofuscando o Triângulo Dourado - região formada por Mianmá (Birmânia), Laos e Tailândia.
A heroína do Afeganistão abastece uma população já numerosa de viciados no vizinho Paquistão e também no Irã, ásia Central e Rússia. Cerca de 90% da heroína consumida na Europa tem sua origem no Afeganistão. E funcionários do governo dos EUA receiam que quantidades maiores da droga cheguem logo ao país.
Enquanto isso, a milícia islâmica radical Taleban financia em parte suas atividades taxando o comércio de ópio. Isso representa um dilema para os articuladores de programas governamentais no mundo todo. Como combater a produção de drogas num país que, mesmo ignorando-se o comércio de heroína, já é tratado como um pária?
O Taleban, que administra 85% do Afeganistão, informa querer cooperar nos esforços para erradicação da droga, mas não tem credibilidade. Só três países reconhecem o governo do Taleban: Paquistão, Arábia Saudita e Emirados árabes Unidos. A milícia pratica o que o Ocidente chama de "apartheid dos sexos", subjugando duramente as mulheres. Comete atrocidades contra minorias, até prende membros da etnia hazara, alguns dos quais desapareceram. E acolhe extremistas islâmicos como Osama bin Laden, o líder que possivelmente está por trás dos atentados a bomba contra duas embaixadas americanas na áfrica em 1998, os quais mataram 224 pessoas.
A intensa pressão diplomática sobre o Taleban não arrancou concessões. Em julho, o governo de Washington proibiu toda atividade comercial norte-americana com o Afeganistão, porque o Taleban não quis entregar Bin Laden. Falhando a tentativa, o Conselho de Segurança da ONU ordenou, semanas atrás, o congelamento das contas bancárias de líderes do Taleban no estrangeiro e baixou proibição contra sua companhia aérea.
Mas o Taleban é irredutível. "Nunca vamos entregar Osama bin Laden", ironizou Waki Ahmad Muttawakil, ministro das Relações Exteriores do Taleban. "Ele continuará livre, num desafio aos EUA." O Taleban pode dar-se ao luxo do desafio, em parte porque o setor do ópio lhe propicia renda e apoio político. Mulás do Taleban argumentam que, para acabar com o comércio, a ONU precisaria reconhecer o grupo como governo legítimo e colaborar com ele em busca de opções. Nesse ínterim, fica evidente que, permitindo a produção de ópio, o Taleban melhora as condições econômicas em áreas sob seu controle e arrecada impostos para continuar a guerra contra seus adversários.
Funcionários do Taleban dizem publicamente que se opõem às drogas e argumentam, com razão, que o cultivo de papoula fazia parte da paisagem afegã bem antes de o Taleban expulsar seus adversários de Cabul, a capital, em 1996. O regime tem um chefe de programa antidrogas e de vez em quando dá um show, destruindo campos de papoula ou fechando laboratórios. Mais recentemente, ordenou aos agricultores reduzir em 30% o plantio de papoulas nesta estação. Também reconhece que impõe usher (taxa religiosa) de 10% sobre a safra. Mas funcionários argumentam que papoulas não são droga, dizendo que o imposto não difere do cobrado, por exemplo, do trigo.
Além do mais, insistem que não têm condições políticas de reprimir os agricultores. "Somos contra o cultivo de papoulas, a produção de narcóticos e as drogas", diz Abdul Hakeem Jujahid
representante do Taleban nos Estados Unidos. "Mas não podemos combater nosso próprio povo. Eles são a única base de nossa autoridade." O que é apenas meia verdade. A verdade completa é que o Taleban também recebe impostos não só das safras de papoula, mas também diretamente dos laboratórios de heroína.
Zuber, o viciado agora internado na clínica Ora (dirigida por europeus em Peshawar), diz que seu laboratório embalava pasta de morfina em pacotes de 6 quilos e o Taleban cobrava US$ 55 de imposto por quilo. Só naquele laboratório, a renda tributária diária podia chegar a US$ 5.500 na alta temporada - e ele era apenas um dos 20 ou 25 laboratórios das redondezas. A Newsweek também examinou fotos de recibos oficiais de impostos dos laboratórios de heroína.
"Criminosos, religiosos e funcionários oficiais estão todos coligados no comércio de heroína, como no do arroz e mel", diz o agente de um governo ocidental que fez trabalho clandestino no Afeganistão. Contrabandistas fornecem aos agricultores empréstimos adiantados para pagamento na colheita, e às vezes mulás abençoam um carregamento de ópio antes de sua remessa. "Todo o país está-se reorientando em torno dessa cultura", diz David Mansfield, pesquisador da ONU que faz levantamentos da droga no Afeganistão.
Ao contrário de seus rivais afegãos, o Taleban transmite uma razoável impressão de segurança nas áreas sob seu controle. Dá proteção aos comerciantes, seja qual for seu negócio. O agente ocidental, que pediu anonimato, lembra um incidente em 1996, em que um grande carregamento de um produto químico usado no refino de heroína, pertencente a um grupo produtor de ópio, foi roubado em trânsito, na província meridional de Helmand. O grupo entrou em contato com autoridades do Taleban, que localizaram a carga e logo a devolveram.
O agente também diz ter visto bin Laden no Afeganistão em 1995. Nessa época, conforme conta, os mujahedines de Bin Laden estavam ajudando no embarque de drogas para a Turquia, através do Irã.
Um dos maiores barões das drogas em Kandahar, a capital do Taleban, é amigo do líder do grupo, o mulá Mohammed Omar. Segundo fontes afegãs e ocidentais, Haji Bashar Mohammed combateu lado a lado com o mulá Omar durante a jihad (guerra santa), apoiada pelos EUA, contra a ocupação soviética nos anos 80. Bem depois da expulsão dos russos, quando o mulá Omar começou a liderar a milícia, Bashar deu-lhe seu primeiro lote de armas. Assim, quando o Taleban entrou na capital do Afeganistão, Cabul, em 1996, Bashar estava bem preparado. Transferiu seus laboratórios do Paquistão para Kandahar e começou a circular pela cidade num Land Cruiser preto.
Contrabandistas compram ópio em grandes mercados que são o traiçoeiro domínio de sindicatos do crime. Um dos mercados de mais triste fama fica na cidade de Sangin, a três horas em viagem de carro a oeste de Kandahar. Bernard Frahi, chefe do escritório da ONU para combate a drogas em Islamabad, Paquistão, visitou o mercado em outubro. Conta que, dos cerca de 500 comerciantes amontoados na rua principal e nas redondezas, quase metade vendia ópio. Eles têm balanças diante dos estabelecimentos e, lá dentro, conservam ópio molhado em sacos plásticos e ópio seco empilhado em grandes bolos. "Um comerciante contou-me ter vendido 28.000 quilos de ópio no ano passado", diz Frahi, que teve uma renda bruta de US$ 132.000. "Sangin é conhecida como cidade perigosa. Tem a fama de lugar aonde as pessoas chegam e de onde não mais saem."
Até mais perigosas são as áreas da fronteira com o Irã, Tadjiquistão e Paquistão. A ONU está ajudando a criar uma agência de combate a drogas no Tadjiquistão, enquanto o Irã está travando uma guerra de desgaste - segundo a versão do governo de Teerã, traficantes de drogas mataram mais de 2.650 homens da segurança iraniana desde 1983. No começo de novembro, mais de 30 guardas iranianos foram mortos num só confronto com um comboio de drogas.
Funcionários de governos europeus estão-se preparando para um possível surto no fornecimento de heroína. "Isto vai ter impacto direto e imediato em nossas ruas e cidades", advertiu o ministro britânico das Relações Exteriores, Robin Cook. Para ajudar a impedir o influxo, a Inglaterra forneceu ao Irã cerca de US$ 500 mil para a compra de coletes à prova de balas para seus guardas de fronteira.
Também está prevendo um marketing ativo dos vendedores. "Pode haver mais amostras grátis (para expandir a base de consumo)", diz o chefe do programa britânico antidrogas, Keith Hallawell. Na França, autoridades estão preocupadas com a pureza da heroína afegã. "Pode haver erros de dosagem para mais", diz Alain Labrousse, do Observatoire Géopolitique des Drogues, em Paris.
Mas alguns especialistas europeus destacam que na Europa o consumo de heroína continua estável - levando-os a prever que os excedentes do Afeganistão devem estar indo para outras partes do mundo. Diante da retórica frequentemente dura do Taleban contra o Ocidente, alguns críticos no mundo ocidental perguntam se o Taleban não estaria tendo uma motivação oculta em sua política para drogas - envenenar "infiéis". Mas a verdade é que as drogas afegãs estão provavelmente prejudicando pelo menos tantos muçulmanos quanto membros de outras religiões.
No Paquistão, viciados "ficam ligados" ou "caçam o dragão" fumando ópio. O Irã tem mais de 1 milhão de pessoas que consomem drogas e o número está aumentando.
Por estranha ironia, o Afeganistão está melhor que a maioria dos países na região. Embora o vício seja um problema em partes do país, é ilegal e não está generalizado, motivo pelo qual os agricultores não vêem com frequência os efeitos de seu comércio em seres humanos. Sher Khan, agricultor de 28 anos que mora na aldeia de Ghas Ge, plantou papoulas poucas semanas atrás em seu terreno de 6.000 metros quadrados. Ele não vai enriquecer, mas pelos padrões locais vai-se sair muito bem - ganhar cerca US$ 4.000 aos preços atuais. A boa sorte de Khan é para muita gente no mundo todo um pesadelo cada vez maior.

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