Maurício Borges
Cumprindo determinação do delegado-chefe do Departamento de Polícia do Interior (DPI), Roberto Ferreira do Nascimento, o delegado de Ivaiporã (140 km ao sul de Apucarana), Aparecido Antônio Gregório, determinou ontem o afastamento do escrivão José Maria Anacleto, e do suplente de delegado de Arapuã, Paulo Cesar Bueno. Ambos são acusados de intermediar a venda de um lote de 32 cabeças de gado furtadas da Fazenda 7 Mil, que está ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), desde abril de 97.
Segundo Gregório, os dois ficarão suspensos de suas funções e também serão indiciados no inquérito policial instaurado para apurar circunstâncias e responsabilidades no furto, ocorrido na madrugada da última quinta-feira. O escrivão Anacleto será ainda alvo de uma investigação preliminar, destinada a apurar supostas irregularidades administrativas. O resultado da investigação seguirá, posteriormente, à Corregedoria Geral da Polícia Civil.
Na madrugada em que ocorreu o furto, a Polícia Militar recebeu a denúncia por telefone e fez o cerco numa estrada rural próxima ao distrito de Romeópolis, apreendendo dois caminhões transportando o gado. Foram autuados em flagrante o pecuarista Ademar Begnini, proprietário da Distribuidora de Carnes Frigoeste, de Guarapuava, e os motoristas Luis Carlos de Souza e Geraldo Alves Penteado.
No flagrante, lavrado pelo próprio Anacleto, consta que Begnini se reservou o direito de prestar depoimento somente à Justiça. Porém, ele prestou uma declaração informal ao delegado Aparecido Antônio Gregório, esclarecendo que o gado vinha sendo oferecido há mais de um mês por Anacleto e Bueno, que intermediaram o negócio entre ele os sem-terra, recebendo R$ 3 mil cada um.
Ontem, o escrivão e o suplente de delegado apresentaram sua defesa, numa versão transmitida via fax à Folha. Os dois negam o envolvimento com o furto de gado da ‘‘7 Mil’’, reiterando que naquela noite estavam investigando uma nova denúncia de que dois caminhões, do tipo boiadeiro, haviam entrado na fazenda.
Segundo Anacleto, no meio policial, quando se prende um ladrão, é comum surgirem acusações contra policiais. ‘‘Fiquei surpreso com a acusação feita pelo autuado, mas muito mais com a postura do capitão José Carlos Xavier (da PM), que distorceu os fatos e passou uma versão mentirosa à imprensa’’, afirmou o escrivão.
Para Anacleto e Bueno, o capitão agiu de forma precipitada, sem antes investigar os fatos e comunicar seus superiores, tentando deliberadamente prejudicá-los. Ambos também acusam o oficial da PM, comandante da companhia de Ivaiporã de, há alguns meses, ter recebido do proprietário da Fazenda, a título de gratificação, R$ 3 mil pela recuperação de uma carga de 70 bovinos furtados da 7 Mil.
A suposta gratificação foi desmentida ainda ontem pelo advogado Paulo Belo, que representa os interesses do pecuarista Flávio Pinho de Almeida (proprietário da 7 Mil), em Ivaiporã. Belo assinalou que nunca deu dinheiro algum ao capitão José Carlos Xavier. O oficial da PM reafirmou ontem todas as evidências de envolvimento do escrivão e do suplente de delegado no furto de gado. Segundo ele, a partir das declarações de Begnini, os dois deveriam ter sido autuados em flagrante.

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