Curitiba, 09 (AE) - A Rede Nacional Autônoma de Advogados Populares, regional do Paraná, encaminhou hoje um ofício à juíza de Loanda (PR), Elizabeth Khater, solicitando que ela apresente o requerimento para a escuta judicial de telefone da cooperativa dos sem-terra no noroeste do Estado, feito pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná. "Os fundamentos apresentados pelo secretário (Cândido Martins de Oliveira) não são suficientes para autorizar uma escuta judicial", alegou o advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da rede, Darci Frigo.
Ontem o secretário tinha justificado o pedido em razão das informações de que havia um processo de armamento geral no Estado, sobretudo no noroeste. Ele também justificou que alguns líderes nacionais do Movimento dos Sem-Terra (MST) teriam dito que iriam "radicalizar as ações" e pelo fato de o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em viagem à Alemanha, ter classificado o MST como "organização paramilitar". "É o arbítrio, pois tira a privacidade das pessoas", afirmou Frigo.
"Vamos analisar o requerimento e as ações a serem impetradas contra o governo, a Secretaria de Segurança Pública e a juíza", disse. Ele também criticou o fato de a Secretaria ter dado proteção à juíza somente depois da divulgação da fita, segunda-feira, apesar de as gravações terem sido feitas entre os dias 10 e 25 de maio. O assessor do secretário de Segurança, Valdir Bicudo, disse que a proteção já vinha sendo dada há mais de um mês, pois os assessores dela atenderam telefonemas com ameaças.
Nos poucos trechos de fitas divulgados - foram gravadas cerca de 150 -, membros do MST, aparentemente em tom de brincadeira, comentam que irão ao Fórum de Loanda "tirar a cabeça da juíza fora". Eles também mencionam que, caso não consigam degolá-la, vão "botar fogo na Delegacia de Loanda, degolar um, qualquer um que apareça de farda na frente nós vamos capar". Os envolvidos no diálogo garantem que tudo era "piada", pois teriam conhecimento do grampo.
O coordenador do MST no Paraná, Roberto Baggio, voltou a acusar o governo de não ter levado em consideração às denúncias que o movimento vem fazendo desde fevereiro de 1997, de que os fazendeiros formaram milícias armadas. O MST teria entregue à delegacia de Querência do Norte armas encontradas na Fazenda água da Prata. "Em nenhum momento a secretaria investigou essas denúncias", afirmou. De acordo com o assessor do secretário, a polícia tem trabalhado no desarmamento e apreende todas as armas não legalizadas.
Baggio reafirmou que se a intenção do governo é descobrir tráfico de armas, o grampo não dirá nada. Segundo ele, os sem-terra "até precisariam de armas para se proteger". "Mas delegamos isso ao governo, que continua nos perseguindo", disse. Ele entende que o único objetivo da divulgação das fitas foi "criar um clima político para colocar as pessoas contra o movimento".
Hoje os cerca de 3 mil sem-terras, segundo o MST, ou 1.200, segundo a Polícia Militar, continuavam acampados na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico, em Curitiba. Eles pretendem ficar no local pelo menos até o dia 16, quando o governador Jaime Lerner retorna dos Estados Unidos. "A principal luta agora é manter o acampamento", disse o líder do movimento, Rogério Mauro. Eles tentam marcar uma audiência para hoje com a governadora em exercício, Emília Belinati.

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