Rio, 16 (AE) - Os advogados de defesa do deputado cassado Sérgio Naya mudaram de estratégia. Hoje, às vésperas de completar dois anos da queda do edifício Palace 2, eles propuseram a construção de um prédio igual ao que desabou, além de pagamento de 200 salários mínimos por danos materiais e morais a cada proprietário de apartamento. Os moradores rejeitaram o acordo, proposto durante um programa de rádio. "O momento de fazer essa proposta já passou", afirmou o advogado dos ex-moradores, Eduardo Lutz. "Se Naya tivesse oferecido acordo quando o prédio caiu, teria minimizado o sofrimento das vítimas, que continuam morando num hotel de terceira categoria, e a situação seria totalmente diferente".
De acordo com a proposta, o novo edifício seria construído por "empresa idônea" no terreno que o Palace ocupou e com a mesma planta, corrigidos os erros estruturais que levaram à queda do prédio. Os moradores que tivessem quitado pelo menos metade das prestações ficariam isentos de pagar o restante da dívida. Os que pagaram até 20% e estavam em dia com as mensalidades teriam o mesmo benefício. Ficariam de fora do acordo a família de seis dos oito moradores que morreram no desabamento - duas famílias já receberam indenização.
"Como é difícil fixar valor para a vida de uma pessoa e qualquer valor proposto é visto como ofensa, vamos deixar a Justiça decidir quanto deve ser pago", afirmou o advogado de Naya, Joaquim Flávio Espíndola. Naya oferece como garantia dois hotéis de luxo, Saint Paul e Saint Peter, ambos em Brasília, avaliados em US$ 45 milhões. Descrédito - Os ex-moradores do Palace vêem a proposta do ex-deputado com cautela e ceticismo. "A juíza da 4.ª Vara de Falências e Concordatas, Márcia de Carvalho, condenou Naya a reconstruir o prédio ou pagar indenização há um ano e meio; por que só agora ele quer reerguer o edifício?", indagou a presidente da Associação de Vítimas do Palace 2, Rauliete Barbosa. "Para mim, não passa de mais uma bravata".
Na sentença, Márcia de Carvalho permitia que os ex-moradores escolhessem entre a reconstrução e o pagamento de indenização por danos materiais. Rauliete está entre as que optou pela primeira alternativa. "Eu não vendi o apartamento para ele, Naya é o que atirou sobre mim", afirmou a advogada, que já adiantou que não voltaria a morar no edifício. Incoerentes - O advogado Joaquim Espíndola alega que a reconstrução não foi proposta antes porque os acordos estavam "evoluindo". "Fizemos 71 acordos, ainda faltam 101 ex-moradores, mas não há disposição deles e os pedidos são incoerentes", disse. Ele cita um pedido de indenização por danos morais de R$ 88 milhões. "O morador pagou R$ 28.422, devia R$ 15.138,39, mas pediu quatro indenizações por danos morais; o que ele chama de dano moral é esse dissabor por ter de mudar de casa", comentou.
A mudança de estratégia da defesa inclui a tentativa de reverter a imagem que se formou do ex-deputado Sérgio Naya, flagrado por câmeras de televisão recusando-se a beber champanhe em "taça de pobre", num hotel de luxo em Miami. "Sérgio Naya é uma vítima também: ele perdeu o mandato de deputado, o registro de engenheiro e teve o maior prejuízo econômico de todos, com o bloqueio de seus bens", disse Espíndola.
"Rauliete quer ser vereadora e está usando a dor do doutor Sérgio para fazer palanque", acusou o advogado. A presidente da associação nega que seja candidata a cargos políticos. O Palace 2 foi demolido após cair parcialmente no carnaval de 1998. Oito pessoas morreram. Ontem, o ex-deputado foi condenado a indenizar um casal do Palace 1 pelos prejuízos causados com a desvalorização do imóvel, em função da queda do outro prédio.

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