Modesto, EUA, 10 (AE) - Três psiquiatras contratados pela Corte Superior de Stanislaus para analisar o imigrante brasileiro Wedson de Morais, em julgamento por assassinato e sujeito à pena de morte, chegaram a conclusões diferentes, dois neutros e um favor do réu.
Os depoimentos deles foram necessários porque Morais, de 36 anos, não tinha antecedentes criminais, nem histórico de doenças mentais. Em 1997, ele teve um acesso de fúria, matando Gerrald e Amelia Hunt, ambos de 79 anos, avós da mulher dele, a americana Jean Cardoza.
O crime ocorreu durante discussão doméstica envolvendo uma conta de US$ 700. Ele deu mais de dez facadas em cada um, na cozinha do sobrado da família, em Newton, a 150 quilômetros de São Francisco, na Califórnia. O crime chocou a cidadezinha, de apenas 6 mil habitantes.
Não há dúvidas quanto a autoria - ele foi preso em flagrante, ainda com a faca na mão, na frente de testemunhas. Mas, com a divulgação dos laudos pela Corte, os especialistas indicaram como possível motivação os conflitos familiares entre o assassino e as vítimas, rejeitando a tese policial de crime premeditado envolvendo dinheiro.
O promotor descreveu Morais como "um fracassado", sem sucesso em vários pequenos negócios. O último deles era o frete de tomates entre Modesto e San Francisco, num pequeno caminhão - os Hunt emprestavam-lhe dinheiro para combustível. A cobrança de uma conta da Texaco foi o estopim da violência.
Morais, a mulher e os dois filhos pequenos moravam junto com os Hunt, que pagavam as contas. Um dos psiquiatras disse que o brasileiro "vivia numa panela de pressão, pressionado por dívidas, por um divórcio em andamento e pelo medo da perda dos filhos, até o momento em que explodiu".
Outro médico registrou uma coincidência no drama: tanto Morais como Jean eram filhos de mãe solteira, ambos criados por avós maternos. Os Hunt criaram a neta Jean, em Newman. Morais foi criado pelos avós Dustan e Melina Morais, em Anápolis (GO).
Em 82, o brasileiro imigrou para San Francisco. Em 90, casou com Jean. E todos voltaram para o mesmo teto dos avós. Com os dele, num breve período no Brasil, e depois com os dela, até o crime.
Num testemunho revelado pela Corte, Lois Miranda, mãe de Jean, admitiu que os Hunt "hostilizavam o marido da filha, até o ponto de proibi-lo de falar em português com as crianças".
Eles queriam que Morais voltasse ao Brasil, deixando os filhos nos Estados Unidos.
Com novas descobertas sobre os conflitos domésticos, a defesa quer provar que Morais agiu sob forte pressão emocional, para evitar a pena máxima - uma condenação mínima de 50 anos é esperada. O problema dos advogados é fazê-lo com tato, para não ferir a imagem das vítimas - dois professores aposentados, reverenciados pela população local. O júri volta a se reunir na próxima quarta-feira.

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