Buenos Aires, 24 (AE) - "Foram jagunços brasileiros". Desta forma, categórico, José Alberto "Icho" Planás, advogado do falecido vice- presidente Luis Maria Argaña, disse à AE que o político paraguaio havia sido executado por assassinos de aluguel brasileiros sob ordens do general Lino César Oviedo, principal inimigo político de Aragaña.
"O general Lino César Oviedo, principal traficante de drogas do país foi o mentor do atentado", afirmou. Segundo Planás, junto com o ex-general golpista também teria participado da organização do atentado um deputado aliado a ele, Honrado Zaldivar. Planás afirma que Zaldivar foi o mesmo que conseguiu há mais de duas décadas, os passaportes falsos dos assassinos do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, morto em Washington em meados dos anos 70.
A contratação dos jagunços brasileiros teria sido feita através do filho de Fahd Yamil, empresário a quem Planás acusa de ser o principal narcotraficante da cidade de Pedro Juan Caballero, próxima à fronteira com o Brasil. "Eles contrataram um tal de Nara, descendente de japoneses, que por sua vez conseguiu uma dezena de jagunços do lado brasileiro da fronteira", disse Planás. O advogado de Argaña afirmou que já haviam sido informados sobre a preparação do assassinato há três semanas.
O advogado fez suas declarações através de seu celular à AE, enquanto caminhava pelas ruas de Assunção seguindo o cortejo fúnebre, que naquele instante ia da casa de Aragaña em direção ao Congresso.
Descrevendo a participação dos brasileiros no atentado, Planás afirmou que o carro dos assassinos seguia o de Argaña na manhã desta terça-feira. Segundo ele, em um momento determinado, o carro que os seguia fez uma ultrapassagem, e dois dos jagunços desceram dando tiros. "O motorista perdeu o controle do veículo onde viajava Argaña no momento em que um tiro acertou sua cabeça. Nesse instante, havia quatro pessoas no carro. Duas ficaram dentro dele, com armas e granadas nas mãos. Os outros dois saíram, metralhando os ocupantes do carro de Aragaña".
Segundo Planás, um dos jagunços brasileiros atirou cinco vezes do lado direito do carro, enquanto o outro fazia o mesmo do lado esquerdo, "tipo máfia de Chicago dos anos 40. E eles fizeram o trabalho tranquilamente, já que para ter certeza que estariam todos mortos, se asseguraram, recarregando as armas, e voltando a disparar os seguintes cinco tiros".
Planás afirmou que outro veículo, com outras quatro pessoas, cobria a retirada dos assassinos. O advogado de Argaña sustenta que os assassinos do vice-presidente não fugiram do país: "Eles estão na residência presidencial ou na residência de Oviedo".
Planás fez um histórico dos assassinatos políticos no país: "Este é o terceiro atentado que nos ocorre. No fim de 1886, foi assassinado o presidente Juan Bautista Gil, e em 1902, foi morto o presidente do Congresso, Facundo Insfrán". Planás sustentou que não há possibilidade de que os militares tentem dar um golpe militar "com a indignação que o povo paraguaio tem, acho impossível. Eles enterraram suas carreiras com esse assassinato. O povo está nas ruas neste momento. Milhares de pessoas estão indo para o Congresso, e logo depois irão para o cemitério da Recolete". Segundo Planás, milhares de pessoas em Assunção estão de luto e têm velas acessas em suas casas em memória de Argaña".
O advogado de Argaña afirmou que é provável que o presidente do Congresso, o senador ángel González Macchi, assuma a presidência daqui a poucos dias. Macchi ficaria como presidente interino enquanto não fosse eleito o novo presidente. "Ele teria um prazo de 90 dias para convocar as eleições. A partir desta convocação, haveria mais 90 dias para a realização das eleições", disse Planás.
O analista político internacioal Guillermo Ortiz, afirmou em Buenos Aires que o assassinato de Argaña coloca um ponto de interrogação sobre a estabilidade institucional da região. Segundo ele, a crise não é uma simples luta dentro do poder de um partido: é uma luta dentro do Partido Colorado, um partido que ocupa o espaço de todo o Estado paraguaio. "É um partido-Estado, o que faz que o coloradismo inevitavelmente transforme seus problemas em questões nacionais, comprometendo a natureza do próprio regime com consequências imprevisíveis".
Segundo Ortiz, o Paraguai é um "leading case" para "um Mercosul que requer uma maior confluência política com mecanismos de alertas de urgência destinados a prever conflitos". Ortiz considera que toda crise é sempre uma oportunidade.
O vice-presidente da Argentina, Carlos Ruckauf, e o chanceler Guido Di Tella, suspenderam a viagem que fariam à Assunção para os funerais do vice-presidente. Segundo a Chancelaria, o cancelamento deveu-se às consultas prévias com o governo paraguaio, que aconselhou que, devido à situação política instável, as representações estrangeiras que pensavam viajar, não o fizeram, e que fossem substituídos pelos embaixadores em Assunção.

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