Rio, 08 (AE) - O advogado da juíza aposentada Valdeci Lopes Pinheiro, investigada por uma suposta ligação com traficantes do Norte fluminense, Paulo Ramalho, interrompeu hoje aos gritos os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados no Rio, durante o depoimento da magistrada - e, convidado a se retirar, provocou a deputada Laura Carneiro (PFL-RJ). A discussão aconteceu quando os deputados leram a degravação de uma escuta telefônica, feita com autorização judicial, entre a juíza e o motorista dela, Manoel Antônio dos Santos - que está preso por formação de quadrilha e tráfico de drogas.OO
"Só saio se a senhora me der voz de prisão", ameaçou. A sessão foi paralisada e, logo depois, dada por encerrada.
A conversa gravada aconteceu em junho, antes da prisão de Santos, e, nela, Valdeci usava termos chulos. A CPI começou a questioná-la sobre o grau de intimidade entre ela e o motorista, confessadamente amigo dos irmãos traficantes Antonio Jorge Gonçalves dos Santos, mais conhecido como "Toni", e Arnaldo Gonçalves dos Santos.
Foi quando Ramalho, que representa a juíza - e ganhou fama como defensor do ator Guilherme de Pádua, assassino da atriz Daniella Perez - interrompeu o depoimento e, alterado, afirmou que a gravação era uma "prova ilícita" e que não poderia ser divulgada, por estar em segredo de Justiça. Ele exigiu que a degravação fosse entregue à cliente - sem saber que
pouco antes, a juíza e Laura tinham acertado que Valdeci teria acesso aos documentos.
Diante das alegações do advogado, Laura decidiu fazer uma sessão fechada, na qual não poderiam ficar nem a imprensa, nem advogados. Ramalho recusou-se e os deputados resolveram encerrar o depoimento. "Já estava mesmo no fim", argumentou o deputado Paulo Baltazar (PSB-RJ). Na verdade, o depoimento não acrescentou nada às investigações. Valdeci negou conhecer os traficantes e defendeu-se detalhadamente de várias acusações que estão sendo investigadas pela polícia e pelo Ministério Público Estadual (MPE).
Já há inquérito aberto para apurar como uma arma registrada em nome dela foi parar com Santos - Valdeci alega que deixou o revólver no carro. Numa outra escuta telefônica, o motorista aparece dizendo ao filho que ia "levar as armas para a casa da juíza". Ela disse desconhecer do que se tratava. Santos foi acusado de participar de um linchamento, que resultou em homicídio. Foi absolvido por um júri presidido por Valdeci - que, no entanto, afirma que, nesse tipo de julgamento, a função do juiz é meramente administrativa.
"É no mínimo imprudente ter um motorista ligado a traficantes", avaliou Baltazar. "Ficou claro que ela tinha uma relação com ele que, por sua vez, tinha relação com Toni e Arnaldo." Os deputados consideraram a história da arma nebulosa e também não se convenceram com a defesa da juíza num confuso caso de apreensão de fardas roubadas do grupamento de fuzileiros navais da região. As fardas estavam sendo levadas para o sítio de "Toni" e foram apreendidas pela Polícia Rodoviária Federal. A juíza apareceu no local e fez um mandado de busca e apreensão, na hora, para ficar com a guarda das fardas. Ela alegou que foi a orientação que recebeu dos fuzileiros navais, o que foi desmentido no inquérito pelo comandante da unidade.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio tem informações de que o traficante carioca Luiz Fernando da Costa, mais conhecido como "Fernandinho Beira-Mar", desenvolveu um método para ganhar novos clientes. A cada partida de cocaína vendida para distribuidores com quem normalmente não trabalhava, ele oferecia, de graça, pedras de crack. Como a droga vicia mais rapidamente do que a cocaína, ele, dessa forma, garantia o mercado.
No Rio, começou a chamar a atenção, nos últimos tempos, a apreensão de crack, antes praticamente inexistente no Estado, por uma estratégia dos traficantes locais. A investigação sobre a presença do crack levou a "Fernandinho Beira-Mar".

mockup