São Paulo, 21 (AE) - O desespero provocado pelo desemprego levou o advogado e jornalista Assis Corrêa Neto a colocar um apelo no caderno "Classificados" do "Estado". Ocupando um espaço acima da média, com uma coluna e 20 centímetros de comprimento, o anúncio diz, entre outras coisas: "Com ótima saúde e com todos os reflexos respondendo e funcionando plenamente, tenho 71 anos de idade. Estou a perigo e na quase total ociosidade. Há muito tempo venho batalhando à procura de um emprego."
Desempregado há tanto tempo que nem consegue se lembrar com exatidão desde quando, o autor do anúncio, intitulado "Jovem de 71 Anos", afirma que viveu bons momentos como profissional. "Entrevistei Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek", lembra Corrêa Neto, que se considera um dos precursores do jornalismo econômico no País.
O jornalista começou a carreira em 1947. Informa que, além de trabalhar em vários veículos de comunicação, entre os quais a Rede Globo de Televisão e a TV Tupi, foi secretário de Imprensa da Prefeitura de São Paulo em 1967 e, pouco depois, assessorou o então ministro da Fazenda Delfim Neto, hoje deputado federal pelo PPB.
A saída do mercado de trabalho ocorreu em meados dos anos 80, quando começou a sofrer complicações da diabete. Os dedos do pé esquerdo dele tiveram de ser amputados. "Acabei tendo de amputar metade do pé esquerdo", diz. O processo de recuperação demorou quase sete anos. "Com discreta prótese, caminho normalmente", escreve, no anúncio.
Após se recuperar, Corrêa Neto procurou os amigos dos tempos de jornalismo. "Muitos deles ocupavam cargos importantes", explica. Mas o esforço foi em vão. "Disseram-me que era muito velho para trabalhar."
No anúncio, ele descreve a realidade dos trabalhadores de mais idade no País: "Pessoas com mais de 40 anos não têm condições de conquistar um emprego. Estão muito velhas. Que dizer de idosos mais velhos, como o meu caso? Só há uma saída. Aguardar pacientemente a morte."
Por mais que precise do dinheiro, a maior preocupação de Corrêa Neto não é o salário, mas a falta de ter o que fazer. "Não estou passando fome."
Ele recebe da Previdência R$ 1.099,00 por mês. "Quando me aposentei, recebia dez salários mínimos", revela. Indignado com o valor da aposentadoria, Corrêa Neto escreveu uma carta para o ministro do Trabalho, pedindo que o caso fosse reavaliado
em 1997.
Meses mais tarde, foi chamado para uma reunião na Secretaria Regional do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). "Estava feliz, pois consegui chamar a atenção do governo", diz. Ao chegar à reunião, porém, ele teve uma surpresa. Descobriu que o encontro havia sido convocado, na verdade, para tratar da suspensão da aposentadoria. "Acusaram-me de fraudar a Previdência", revela. "Fui colocado numa sala suja, onde me fizeram perguntas sobre coisas absurdas."
Cinco meses depois do incidente, Corrêa Neto conseguiu, com a ajuda do advogado e uma disputa judicial, a restauração da aposentadoria. "Foi uma vitória."
Vencido o problema de saúde e restaurado o pagamento da Previdência, Corrêa considera-se hoje em plena forma para voltar ao trabalho. Os resultados do anúncio começaram a surgir hoje mesmo. "Só no domingo, recebi quase 40 telefonemas e fax de pessoas prestando solidariedade à minha causa", diz. Uma dessas pessoas chegou a pedir o currículo. "Agradeço muito o interesse
mas o que me faz falta mesmo é o emprego." Corrêa Neto pede para os interessados entrarem em contato pelo telefone (011) 247-4854

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