Brasília, 07 (AE) - A advogada paulista Valdessara Bertolino recebeu hoje a Medalha dos Direitos Humanos pelo trabalho de assistência jurídica gratuita que desenvolve desde 1994 dentro de trens e ônibus em São Paulo. Durante a solenidade
o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, disse que o governo resolveu homenagear a advogada por entender que é um dos melhores exemplos de solidariedada humana, que tem de servir de referencial para toda a sociedade brasileira.
O trabalho voluntário da advogada começou de forma inusitada. Há cinco anos, ela pegou um trem de Mogi das Cruzes para a periferia da cidade porque não gostava de dirigir. Dona de três carros, entre eles um Mitsubishi, e com renda familiar mensal de R$ 12 mil, Valdessara começou a ouvir reclamações de um grupo de senhoras. Uma delas dizia que estava para perder o emprego e temia que isto atrapalhasse sua aposentadoria. Valdessara chamou a mulher e lhe instruiu que trouxesse os documentos no outro dia, quando a orientou sobre a aposentadoria.
A advogada disse que seu gesto chamou a atenção de vários populares. A partir daquele dia, a "freguesia" de Valdessara foi crescendo e hoje há filas dentro dos vagãos para consultas rápidas relacionadas a aposentadoria, férias, FGTS e vários outros problemas, inclusive sentimentais.
Nas duas horas e meia que passa dentro de trens e ônibus em São Paulo, a advogada disse que fez consultas trabalhistas até para ex-detentos que tinham saído do Carandiru. Valdessara é professora em duas universidades de São Paulo, ambas na zona leste, e também faz parte da comissão do Ministério da Educação (MEC) que reconhece cursos universitários.
Ela irá defender uma tese sobre cidadania, feita com base nestes cinco anos de experiência com o público. "Uma das minhas conclusões é que a sociedade brasileira tem uma carência total de informações básicas", afirma. A advogada diz que em muitos casos encontrou resistência até para convencer as pessoas sobre seus direitos constitucionais. "Muita gente diz que não tem direito a tirar férias sob o argumento de que isto seria um direito apenas de pessoas brancas ou de melhor nível social", contou. Realidade - A tese de Valdessara, que deverá ter o título de "Resgate da Cidadania", vai abordar também a visão sobre a educação das pessoas. "O problema do Brasil não é construir mais escolas, mas disponibilizar leitura sobre direitos básicos", diz. A advogada deverá abordar as duas realidades com as quais trabalha todos os dias. De um lado, disse ela, universitários quase sempre distantes do povo. Do outro, o povo "que é só um número em campanhas eleitorais neste País".
Ainda em sua tese, Valdessara pretende sugerir um modelo de educação baseado nas células do corpo humano. Segundo a teoria da advogada, quanto mais pessoas instruindo e informando quem está próximo, maior a chance de se esclarecer toda a humanidade, de forma mais rápida. "Aprendi desde criança que a gente tem de criar e difundir bons exemplos", afirmou. A advogada cobra participação dos profissionais liberais que não desenvolvem trabalhos voluntários. "Existem milhares de advogados no Brasil e onde estão estes profissionais?", perguntou. Exemplo - O secretário Nacional dos Direitos Humanos disse que Valdessara é um exemplo que o governo quer difundir e homenagear sempre. José Gregori afirmou que direitos humanos é uma área que tem de cobrar a punição de criminosos, mas que também necessita difundir gestos de solidariedade humana. Valdessara comentou que não esperava tamanha homenagem em Brasília, com direito a solenidade especial, para a entrega da medalha.
Mas admitiu que a maior gratificação da sua vida é entrar no trem, pela manhã, e ouvir um agradecimento de uma pessoa que resolveu um problema, depois de receber orientação. E para muitos que tentam fazer comparações com quaisquer personagens do cinema, Valdessara disse que não precisou de inspiração para colocar o pé na estrada.

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