Adultos jovens são vítimas de dependência
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
O crescimento de casos de dependência química entre jovens adultos, na faixa dos 30 anos de idade, tem chamado a atenção de especialistas. Drogas e álcool, neste caso, surgem como uma espécie de fuga às cobranças de alto desempenho profissional e à falta de desafios.
Para a psiquiatra Maria Angélica Gambarini, a adolescência, fase de rebeldia, de experimentar o novo e de fazer parte de turmas, ainda é preocupante no que diz respeito ao uso de drogas. Mas o número de jovens adultos que só começam a usar drogas na faixa dos 30 anos está chamando a atenção. ''Não se via isso antes. O que se via era a pessoa experimentar na época da adolescência, e abandonar ou seguir com a dependência. Agora não, você vê pessoas na faixa dos 30 começando a usar coca, crack'', alerta.
Ex-dependente e presidente do Projeto Londrina Viva (Prolov), casa que trata dependentes químicos, Frederico Augusto do Prado Nogueira conta que está vendo aumentar o número de usuários com mais de 30 anos. ''A gente tem visto muito 'pai de família' que começa a usar crack, gente que tem vida familiar, profissionais liberais. Isso está assustando muito'', afirma.
A explicação para isso, segundo a psiquiatra, pode estar na falta de conquistas. Maria Angélica explica: ''As conquistas ou são de um nível de exigência tão alto, que se tornam inatingíveis, ou são muito fáceis, que não demandam esforço''.
Na área profissional, por exemplo, a cobrança por um alto desempenho e a ''necessidade'' de ser um profissional de destaque, é uma conquista que poucos conseguem. ''A maioria da população tem um funcionamento médio, não chega a ser um grande executivo, que está sempre na mídia, e isso é motivo de insatisfação''.
Em outras áreas, as coisas teriam ficado muito fáceis: ''Hoje um homem não conquista mais uma mulher. Ter uma relação sexual hoje é uma coisa banalizada. Então a pessoa chega nessa faixa angustiada''.
As relações de amizade também teriam diminuído, assim como as confidências entre amigos. ''Ficar na frente da TV é mais seguro e mais sedutor para ficar espiando a vida de alguém. Hoje em dia a vida é tediosa e angustiante, os prazeres são muito limitantes, e as conquistas ou são inatingíveis ou muito fáceis'', avalia.
Apesar de poder atingir qualquer faixa etária e qualquer casta social, a psiquiatra explica que fatores sociais que oportunizam a experimentação precoce e a repetição do uso, favorecem a dependência. Ela cita um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas e Psicotrópicos (Cebrid), da Escola Paulista de Medicina, feito em 2001 em dez capitais brasileiras, que mostra que as primeiras experimentações de substâncias psicoativas acontece por volta dos 10 anos de idade.
Fatores genéticos também influenciam a dependência química. ''Estudos mostram que filhos biológicos de pais alcoolistas têm três vezes mais chances de se tornarem alcoolistas ou de terem alguma dependência'', afirma. Mas a genética não é fator determinante - ''não se herda obrigatoriamente isso. Não quer dizer que a pessoa será dependente, mas que tem mais facilidade para isso. Daí, o trabalho de prevenção''.


