Adulto toma espaço de jovens no mercado de trabalho
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Marisa Torres 
São Paulo, 15 (AE) - Quem está tirando o emprego do jovem? O colega de escola? Não. Na verdade, quem tem tomado o espaço do jovem no mercado de trabalho são os adultos mais experientes. A pressão do mercado - com o ingresso anual de 1,4 milhão de pessoas - atrelada à escassez de ofertas, faz com que as empresas dêem prioridade a pessoas com mais experiência no momento de preencher uma vaga.
"O ajuste do emprego se deu sobre o jovem", diz o professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), Márcio Pochmann. De 1989 a 1998 o Brasil perdeu 3 milhões de empregos com carteira assinada, dos quais dois terços pertenciam a pessoas com idade inferior a 25 anos.
Hoje a grande maioria dos jovens é assalariada, sem carteira assinada e convive com a instabilidade do mercado. Ou seja, pula de um emprego para outro com certa regularidade. Some-se a essas vertentes uma acentuada ampliação da inatividade
estabelecida pela repressão ao trabalho infantil, pelo fato de os pais tentarem postergar o contato dos filhos com o desemprego e a tentativa de qualificar e preparar melhor os adolescentes para o mercado.
Resultado: no início da década, o Brasil tinha cinco milhões de menores de 14 anos no mercado de trabalho. Em 1997, eram 3 milhões. Isso traz consequências também para o comportamento. O jovem passa a sair mais tarde da casa dos pais, adia o casamento e o momento de ter filhos e alguns analistas atribuem a isso até a adesão às drogas.
Há outros entraves que o jovem precisa vencer para chegar ao mercado de trabalho. "A inadequação entre o sistema educacional e o produtivo dificulta ainda mais o acesso a uma posição estável", afirma Pochmann. Estudos mostram que cerca de 80% dos jovens com algum tipo de ocupação não estão atuando em funções relacionadas à sua formação.
Isso coloca um grupo enorme de pessoas na condição do chamado desemprego intelectual. São aqueles que têm algum tipo de formação profissional, mas não a utilizam, nem têm os ganhos compatíveis com o preparo.
Economista e autor de Seu Diploma, Sua Prancha, Roberto Macedo diz que as instituições de ensino orientam o jovem para a profissão, enquanto o mercado se pauta pela ocupação. Primeiro obrigando-o a fazer uma escolha precoce, desde o início do curso e, depois, cerceando-o com grande carga teórica, num currículo rígido. "Então ele tem dificuldade de perceber a necessidade de se tornar flexível para arrumar uma colocação", afirma Macedo."E as empresas não estão olhando muito o diploma." Segundo ele, o engenheiro é o que se tem mostrado mais maleável e, por isso, atua tanto em bancos, vendas, finanças, quanto como fiscal da Receita Federal.
Um estudo de Nicholson & West, empresa inglesa de consultoria que acompanhou 2.304 pessoas para verificar a mobilidade profissional durante os últimos cinco empregos, mostrou que a maioria mudou de empresa uma vez a cada três anos, dos quais 40% trocaram de ramo de atividade e 33% migraram para um novo cargo, cujas tarefas eram desconhecidas.
O pesquisador de Psicologia Organizacional, Sigmar Malvezzi, diz que há grande falta de informação por parte do público jovem. "Em vez de procurar emprego, as pessoas devem se tornar mais autocríticas e agregar valor ao trabalho", aconselha. "Têm de criar um diferencial, mesmo para atuar em funções rotineiras."
Todos os anos 250 mil recém-formados de nível superior são despejados no mercado de trabalho, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Desses, 159 mil vêm de escolas particulares.
O esforço para entrar no mercado, entretanto, começa bem antes da conclusão do curso. De todos os estudantes do País, 62% trabalham 40 horas ou mais por semana, durante o dia, e estudam à noite, segundo a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Helena Guimarães de Castro.
Embora discriminado pela escassez de trabalho, o jovem almeja boa qualidade de vida e atuar em empresas nas quais possa progredir com independência e autonomia. Esse foi o resultado da pesquisa conduzida pela Companhia de Talentos, que seleciona candidatos para os programas de trainee da Monsanto, Alcoa e Philips. "Para eles, a decisão pelo emprego baseia-se na remuneração", diz Sofia Esteves, da Companhia de Talentos.
A trajetória da carreira do jovem é cada vez mais alvo de investigação das instituições de ensino e de selecionadores especializados. A consultora da Across, Alessandra Ísola, dedica-se a um projeto que vai acompanhar 32 jovens, por cinco anos, a partir do ingresso numa carreira de trainee. "É a porta mais indicada já que as empresas investem pesado na formação", justifica. "Queremos saber as principais semelhanças e diferenças dos programas."
Nos últimos anos, esses programas são as únicas vagas em que o jovem não compete com adultos, e tornaram-se a esperança para o ingresso definitivo no mercado de trabalho. Atualmente, quase toda empresa de médio e grande porte tem um dos dois programas. Tratam-se de oportunidades de carreira bem-estruturadas para privilegiados, uma vez que apenas 1% da população brasileira passa por uma universidade.
O Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) tem hoje mais de 24 mil estudantes participando de programas de estágio e mil vagas para serem preenchidas no Estado de São Paulo.


