Bucareste (AE-AP) - Alin Stan ouve, com uma mistura de tédio e distração, a Orquestra de Luxemburgo tocar polcas e valsas num palco aberto. Ele está esperando pelo que considera o maior evento do concerto: bandas de hip-hop romenas.
"O hip-hop nos representa", diz o garoto de 17 anos. "Nós no reconhecemos nele. A vida é mostrada como ela é aqui".
Seu amigo, Catalin Burca, 18, concorda. Para ele, as peças tocadas pela Orquestra de Luxemburgo são totalmente estrangeiras. "Eu nunca ouvi tais músicas", ri.
Durante os tempos comunistas, os governos da Romênia e de todo o bloco soviético subsidiaram orquestras e apoiaram jovens músicos de talento a promover a imagem do país internacionalmente e demonstrar a superioridade do sistema socialista.
Por décadas, a audição de rádios do ocidente não era bem vista ou até mesmo proibida, na tentativa de desencorajar tendências sociais "decadentes".
Com o colapso do comunismo em 1989, tudo mudou. A MTV e outros símbolos nos EUA tornaram-se comuns. Como um sinal dos tempos, mesmo a rádio nacional romena, anteriormente devotada à musica ou ao folclore romeno, agora inclui hip-hop em sua programação, embora escolha aqueles sem letras profanas ou contrárias ás regras gramaticais.
Como a maioria dos jovens no concerto, Alin e Catalin estão usando símbolos americanos. Alin veste uma camiseta de etiqueta padrão, Catalin usa a última moda, botas de couro do estilo usado por soldados do exército.
A tendência em relação ao empréstimo cultural norte-americano não é universalmente visto como um desenvolvimento positivo na Romênia. O país continua lutando para encontrar sua identidade nacional após o colapso do sistema social que, com todas as suas falhas, esteve em voga por mais de 40 anos.
Para alguns romenos, a loucura hip-hop e outras invasões da cultura americana enfatizam o declínio do padrão educacional, cultural e social desde o comunismo.
"Eles assimilaram isso porque está próximo ao nível de educação deles", diz Titus Andrei, editor de música da rádio romena nacional, sobre os jovens do seu país viciados em hip-hop. "Eles não ouvem Pink Floyd, por exemplo, porque não são capazes de entender".
Desde o colapso do comunismo, simbolizado pela queda do Muro de Berlim no dia 9 de novembro de 1989, o governo desta nação dos Balcãs carece de recursos financeiros para manter seus padrões de educação e cultura no mesmo nível anterior a 1989.
Os abundantes subsídios governamentais para teatros e orquestras não existem mais. O Teatro Nacional em Cracóvia, que já realizou turnês por dezenas de países, recentemente anunciou que iria fechar suas portas devido às reduções dos subsídios estatais.
Os atores recebem agora tão pouco, cerca da metade do que um outro trabalhador ganha, que alguns vivem com suas famílias nos camarotes dos teatros.
Nos EUA e em outros países capitalistas desenvolvidos, a arte sobrevive graças a doações particulares. Mas para os novos ricos romenos, apoiar a cultura não é prioritário.
"Eles precisam primeiro comprar seu carro novo, sua nova casa com piscina, uma espécie de síndrome que dá a eles a verdadeira idéia de arte como uma oportunidade de investimento"
diz Nicolae Alexi, um proeminente pintor e professor da Academia de Artes.
Sem subsídios estatais, as portas para o aprendizado e para as artes estão fechadas para muitos romenos num país em que um milhão e 700 leus romenos (US$ 100) é a média salarial mensal.
Entradas para teatro e cinema custam até 33.700 leus (US$ 20). É praticamente o mesmo custo da era comunista, mas comida e serviços agora consomem uma parte maior do orçamento familiar e uma saída noturna para o cinema tem de ser cuidadosamente planejada.
Os livros custam entre 33.700 leus (US$ 2) e 337.00 leus (US$ 20) a unidade, preços modestos para os padrões ocidentais, mas significativamente superior ao que era sob o regime comunista, quando eram vendidos por preços que variavam entre 5.055 (30 cents) e 50.550 leus (US$ 3). Para famílias com orçamento apertado, esta é uma despesa não permitida.
"Nós compramos livros duas vezes por mês", Rodica Hanganu, uma engenheira de 45 anos, diz enquanto seleciona um lustroso livro sobre o Egito para sua filha adolescente. "Mas isso significa que deixamos de lado nossa programação de visitar nossos amigos".
Com os preços de livros relativamente altos, bibliotecas públicas registraram aumento pela procura. O biblioteca municipal de Bucareste, por exemplo, registrou um aumento de 25% no número de visitantes nos últimos três anos, muitos deles adolescentes. "Nem tudo está perdido", diz a bibliotecária Carmen Letcan.

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