Curitiba - Um adolescente de 16 anos enfrentava, há cerca de dois anos, uma rotina de trabalho escravo em um canil em Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. O caso foi denunciado pelo Conselho Tutelar do município ao Ministério Público do Trabalho. Ontem, representantes dos dois órgãos foram até o local e resgataram o menor. Ele voltou para a casa da mãe, no Jardim Monte Castelo, em Colombo, também na Grande Curitiba.
A procuradora do Trabalho, Margaret Matos de Carvalho, protocolou denúncia ainda na manhã de ontem, no Fórum de Pinhais, pedindo a prisão imediata das duas mulheres mãe e filha, cujos nomes não foram divulgados que mantinham o adolescente em condições subumanas. Além de responderem criminalmente pelos maus-tratos ao menor, o Ministério Público do Trabalho vai mover uma ação para que Marcelo (nome fictício) seja indenizado pelos dois anos de trabalho não remunerado.
De acordo com Margaret, Marcelo cuidava de aproximadamente 60 cães que eram recolhidos da rua pela dona da chácara onde trabalhava. Além da obrigação diária de limpar e alimentar os animais, sem receber praticamente nada pelo serviço, ele tinha que dividir o espaço com os cachorros para dormir. Marcelo passava fome, pois por várias vezes recebia apenas pão velho para comer. O adolescente não tinha local adequado para cuidar de sua higiene e usava jornais para fazer suas necessidades fisiológicas. Quando tinha que isolar as cadelas que entravam no cio dos outros cães, o adolescente chegava a dividir sua cama com os bichos, relatou a procuradora.
Marcelo havia saído de casa, aos 14 anos, para trabalhar. Foi recolhido pelas duas mulheres em Pinhais e, desde então, perdeu contato com a mãe, Marlene de Oliveira, e não sabia voltar para casa. Segundo Margaret, apesar dos 16 anos, o adolescente teve pouco estudo e ficou isolado do convívio com outras pessoas durante os dois últimos anos.
Marlene, aliviada por ter seu filho de volta, disse que não fazia idéia da situação precária em que ele estava vivendo. ''Nós também passamos por dificuldade, mas não a esse ponto'', declarou. Ela contou que, há cerca de 15 dias, Marcelo ligou contando pelo que estava passando. Marlene disse a ele que consultaria um advogado para saber se, caso abandonasse o trabalho, perderia o direito de receber pelo tempo que cuidou do canil. Combinaram que Marcelo voltaria a ligar, mas ele não fez mais contato com a mãe. Foi quando o Conselho Tutelar de Pinhais soube do caso e fez a denúncia.
O Conselho Tutelar de Colombo assumirá, agora, o caso de Marcelo. A conselheira Denir Aparecida de Oliveira acompanhou, ontem, o adolescente no reencontro com a mãe, que está desempregada e vive do pouco que ganha como catadora de papel e com o auxílio Bolsa Escola. Além de Marcelo, Marlene tem duas filhas de 10 e 9 anos. Segundo Denir, o Conselho irá dar assistência ao menor para que ele volte a estudar e se readapte ao convívio com a sociedade.

mockup